InícioOpiniãoFÉRIAS NOS AÇORES: COMO CHEGAR CÁ?

FÉRIAS NOS AÇORES: COMO CHEGAR CÁ?

Muito se fala da quebra nas taxas de ocupação turística nos Açores em 2026 e da saída da Ryanair como uma das principais causas. É verdade que teve impacto. Mas limitar o problema apenas a essa saída é ignorar uma realidade mais profunda: os Açores estão a tornar-se um destino cada vez menos acessível.
E há um sinal particularmente preocupante que devia fazer soar os alarmes. Durante décadas, os emigrantes açorianos fizeram sacrifícios para regressar às ilhas, especialmente em momentos marcantes como as festas do Senhor Santo Cristo. Era uma ligação à terra e à família que resistia à distância e às dificuldades. Esse ano, porém, os preços das viagens começam a quebrar essa ligação. Muitos deixaram de conseguir vir com a frequência de outros tempos e alguns acabam mesmo por abdicar de regressar.
Se até a nossa diáspora, que mantém uma ligação emocional e familiar às ilhas, começa a deixar de vir por causa dos custos das viagens, então existe um problema sério que não pode continuar a ser ignorado.
Outro ponto, é efetuar uma simulação simples entre Lisboa ou Porto e Ponta Delgada para perceber a dimensão da questão. Encontrar voos abaixo dos 450 euros tornou-se cada vez mais difícil. E estamos a falar apenas da viagem de uma pessoa. Quando se soma alojamento, rent-a-car, refeições e restantes despesas, facilmente umas férias em família nos Açores atingem valores incomportáveis para muitas carteiras.
E é aqui que precisamos de ser realistas.
Os Açores são um destino de enorme valor natural e turístico, mas continuam a ser um arquipélago no meio do Atlântico, totalmente dependente da acessibilidade aérea. Quando uma família compara os Açores com outros destinos mais baratos e mais fáceis de alcançar, acaba muitas vezes por optar pelo destino que pesa menos no orçamento.
A saída da Ryanair veio apenas expor uma fragilidade que já existia. O problema é estrutural e exige muito mais do que discursos otimistas ou campanhas promocionais.
Talvez por isso devêssemos olhar para aquilo que a Madeira fez em momentos de maior pressão turística. A Madeira percebeu cedo que acessibilidade aérea não é apenas turismo, é economia, emprego, investimento e mobilidade. Apostou na diversificação de companhias aéreas, na criação de rotas, na concorrência e numa estratégia contínua para garantir conectividade ao longo do ano.
Nos Açores, continuamos demasiadas vezes a discutir turismo sem discutir aquilo que o torna possível: chegar cá.
E as consequências não ficam apenas nos hotéis ou alojamentos locais. Afetam restaurantes, empresas marítimo-turísticas, comércio, rent-a-car e dezenas de pequenos empresários que dependem diretamente do fluxo de visitantes. Quando o movimento abranda, o investimento retrai-se. Sem investimento, diminuem os postos de trabalho. E sem emprego, cresce novamente a dependência de apoios sociais e subsídios.
Também importa desmontar uma ideia repetida demasiadas vezes: a de que os Açores devem apostar apenas em “turismo de valor”. Turismo de valor não pode significar um destino inacessível. Porque há uma diferença entre valorizar um destino e afastar as pessoas dele.
Os Açores continuarão sempre a ser únicos. Mas há sinais de alerta demasiado evidentes para continuarem a ser ignorados.
E talvez o sinal mais preocupante de todos seja este, quando os nossos emigrantes começam a deixar de conseguir regressar às suas ilhas, é porque alguma coisa está claramente errada.

Lorena Pereira
Deputada Municipal do CHEGA em Ponta Delgada

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Most Popular

Recent Comments