Não há ilusões a fazer. Para ter turistas nos Açores, são precisos aviões e passagens a preços competitivos — o nosso isolamento e a beleza paisagística são os nossos principais ativos — mas também a nossa maior fragilidade.
Nas empresas privadas, quando os lucros sobem, é altura de investir, modernizar e olhar para o futuro. Na Região, com o aumento das receitas aumentaram-se as despesas de forma insustentável, mantendo e engordando a máquina pública.
Os sucessivos Governos Regionais dos Açores deixaram-se embriagar pelo crescimento do turismo, desvalorizando a agricultura e as pescas, trocando as vacas que dão leite por vacas a pastar na Praça de Espanha, e negligenciando a gestão da SATA, que se afundava em dívidas sob a tutela de comissários políticos.
O atual Governo Regional da coligação consegue, a custo, adiar o problema — sem cumprir quase nada do acordado —, mas continua a conceder avales à SATA e a acumular responsabilidades. A SATA é um dos maiores responsáveis pelo desequilíbrio das contas públicas regionais e pelo crescimento galopante da dívida.
Perante este cenário, ficou claro que não há dinheiro — nem visão — para acautelar o futuro. E é aqui que entra o Turismo: o principal setor da economia dos Açores, aquele que mais sustenta a atividade económica e o emprego.
Acautelar o futuro teria sido adquirir novos aviões para a SATA Inter-Ilhas, reforçar a capacidade de transporte — incluindo de mercadorias — e não deixar a região dependente de uma frota cada vez mais reduzida e obsoleta.
Acautelar o futuro não teria sido levar comitivas imensas à BTL e gastar 667 mil euros a pôr vacas na Praça de Espanha, mas dar previsibilidade de voos e rotas aos operadores turísticos.
Acautelar o futuro teria sido garantir que a SATA Internacional cumprisse o único propósito para que foi criada: promover os Açores — e não voar ao sabor de interesses obscuros e bairrismo doentio.
Acautelar o futuro teria sido garantir que a privatização da SATA Internacional não fosse o desastre que está a ser. Por que razão não se articulou com o Governo da República e a União Europeia para privatizar a TAP e a SATA Internacional em conjunto e até, quiçá, todo o grupo SATA?
A Ryanair abandonou os Açores em março de 2026, alegando razões pouco convincentes, mais condizentes com a sua lógica de capitalismo selvagem. Mas uma coisa é certa: se o número de dormidas já estava a descer, é uma verdade lapalissiana que a situação só vai agravar-se.
O Governo Regional continua em estado de negação, adotando uma narrativa perigosa de que está tudo bem porque as receitas ainda aumentam. Mas perder quota de mercado nos negócios é fatal. Ao perdermos dormidas, perdemos quota de mercado. Os turistas estão a ir para outros destinos — são evidências, não opiniões.
Se o Governo Regional insistir na política do avestruz — enterrando a cabeça na areia e proclamando que as receitas subiram, mesmo enquanto as dormidas caem a pique — antevejo uma catástrofe económica e social para os Açores.
A agricultura está condicionada no seu crescimento: pelo acordo do Mercosul, pelos problemas estruturais de sempre e pelos custos de transporte exorbitantes. As pescas caminham para a falência, esmagadas pelas taxas e sobretaxas da Lotaçor e da SATA — empresas que continuam a aumentar custos com pessoal de forma descontrolada.
Se o turismo se afundar, só nos restará acreditar que o futuro — ainda que distante — passará pelo envio de foguetões para Marte com turistas excêntricos.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

