Todo e qualquer casamento por conveniência, regra geral, não acaba bem. Quem não sabe isto, ou nunca viveu a política por dentro, ou ainda acredita em contos de fadas com ata, carimbo e lugar no Governo.
Foi precisamente isso que aconteceu em 2020, quando se formou esta solução governativa. Mesmo contra aquilo que me dizia o instinto, a experiência e até a mais elementar prudência política. Mas a ânsia de varrer o socialismo da Região ( ou talvez algo mais do que isso) falou mais alto do que a consciência de que três galos no mesmo galinheiro nunca iriam cantar afinados durante muito tempo.
O processo foi difícil. Pelo meio meteu egos, opinadores, recados, pressões, pequenos poderes e muita ganância. E, como quase sempre acontece nestas coisas, falou-se muito em salvar os Açores, mas pensou-se demasiado na sobrevivência política de alguns.
Quando não se percebe o erro que se comete, volta-se naturalmente a cometer o mesmo erro, apenas com outra embalagem. Foi isso que aconteceu em 2024, com a formalização eleitoral da coligação PSD/CDS/PPM. A mesma lógica, os mesmos vícios, os mesmos equilíbrios frágeis, os mesmos jogos de bastidores e a mesma ilusão de que juntar siglas é o mesmo que garantir estabilidade.
Não é. Nunca foi.
Na noite eleitoral de 4 de fevereiro de 2024, deixei o alerta: os maiores fatores de instabilidade estavam dentro de casa. Não estavam no CHEGA. Não estavam fora do Governo. Estavam precisamente nos partidos que a coligação insistia em levar ao colo. O tempo, esse juiz implacável que raramente pede licença, acabou por dar razão ao que dissemos.
A coligação venceu sem maioria absoluta. O CHEGA cresceu, passou de dois para cinco deputados e tornou-se indispensável para qualquer solução séria de estabilidade. Mesmo assim, preferiram fingir que nada se passava. Preferiram continuar agarrados à velha lógica do “vai dar”, do “logo se vê”, do “isto compõe-se”. Pois bem: não se compôs.
Dois anos depois, brigam as comadres. E todos fingem que continuam a visitar a casa uns dos outros, que há confiança, que há lealdade, que há rumo comum. Não há. Isso é conversa para enganar distraídos. Os sinais sempre foram evidentes, sobretudo nas tomadas de posição públicas, nas meias palavras, nas bicadas políticas e nas deslealdades institucionais que foram sendo acumuladas por quem estava dentro da própria governação.
Não há forma de esconder isso. Está registado em vários formatos e feitios.
Durante todo este tempo, enquanto alguns se entretinham com jogos de bastidores, tentaram atingir o CHEGA por dentro e por fora. Tentaram domesticar-nos. Tentaram transformar-nos em muleta. Tentaram fazer de nós uma marioneta da governação. Enganaram-se. O CHEGA aguentou-se, cresceu, incomodou e provou que a nossa força não está nos corredores do poder, mas na confiança dos açorianos que já perceberam que há muita gente a falar em estabilidade quando, na verdade, só quer segurar o lugar.
Venha quem vier, isso nunca acontecerá: o CHEGA não será fantoche de ninguém.
A verdade é simples: brigaram as comadres e os Açores entram novamente num clima de instabilidade política. E isto acontece numa altura em que a Região atravessa dificuldades sérias: contas públicas pressionadas, SATA sem resposta estrutural, transportes inter-ilhas a falhar, mobilidade aérea presa a promessas de Lisboa, combustíveis a pesar cada vez mais no bolso de quem trabalha e o Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, ainda metido num impasse vergonhoso, quase dois anos depois do incêndio que atingiu o maior hospital dos Açores.
Ou seja, enquanto o povo precisa de respostas, alguns continuam entretidos com novelas internas.
E, como se não bastasse, voltamos a ver ressuscitar o fantasma do bairrismo. Ilhas contra ilhas. Pessoas contra pessoas. São Miguel contra a Terceira. A Terceira contra São Miguel. O Pico, o Faial, São Jorge, Flores, Corvo, Santa Maria e Graciosa usados como peças de xadrez por quem devia estar a defender a Região inteira.
Isto não é defender ilha nenhuma. Isto é usar as ilhas para tentar ganhar votos. É sobrevivência política mascarada de regionalismo. É o velho truque de dividir para tentar reinar.
A história desta frágil Autonomia repete-se demasiadas vezes. E repete-se quase sempre da pior forma: numa espiral destruidora em que uns brincam aos poderes, outros fazem contas aos cargos, outros escondem-se atrás de discursos bonitos, e no fim quem paga é sempre o mesmo: o bom povo açoriano.
Quando brigam as comadres, descobrem-se muitas verdades. E certamente ainda vamos conhecer algumas. Quase sempre por terceiros, quase sempre por fugas, quase sempre por murmúrios de corredor, porque a coragem, infelizmente, não é o recurso mais abundante nesta terra.
Os Açores precisam de estabilidade política. Sempre precisaram. Sem estabilidade não há confiança, não há investimento, não há planeamento, não há execução, não há progresso, não há prosperidade. Mas para alguns isso importa pouco, desde que consigam destruir o adversário, condicionar o parceiro, salvar o lugar ou aparecer na fotografia.
Não tenho o hábito de me meter em casa alheia. Mas, como responsável político, tenho o dever institucional de dizer o óbvio: se este Governo quer governar com estabilidade, tem de clarificar quem está dentro e quem está fora. Quem está com o Governo e quem está apenas à espera do melhor momento para lhe puxar o tapete. Quem quer servir os Açores e quem está apenas a servir-se dos Açores.
Por isso, este tempo exige uma moção de confiança por parte do Governo Regional. Sem dramas, sem teatros e sem medo. Uma moção de confiança clara, frontal e política, para que os açorianos saibam quem está dentro e quem está fora deste barco autonómico.
Porque a Região não pode continuar a viver em suspenso. Não pode continuar refém de amuos, egos, recados e pequenas vinganças. Não pode continuar a ser governada como se fosse uma sala de espera de ambições pessoais.
Esta briga de comadres não pode, nem deve, ser mais um fator de instabilidade na nossa já castigada terra.
Tenho dito. E é bom que me oiçam.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

