A informação é manipulada, a imprensa nem sempre é independente e a narrativa de quem financia acaba, demasiadas vezes, por influenciar aquilo que chega às pessoas. Falar dos factos tornou-se um risco: tudo pode ser distorcido, desmentido ou rotulado de mentira, conforme os interesses de quem ouve.
Cada um fecha-se na sua bolha, consome a informação que lhe convém e rejeita tudo o que contraria as suas convicções. Assim, deixamos de procurar a verdade e passamos apenas a defender a nossa versão dela.
Enquanto discutimos narrativas, os interesses instalados continuam a fazer o seu trabalho. Lobbies, corrupção, negociatas e jogos de poder não desaparecem porque a sociedade está dividida. Pelo contrário, beneficiam dessa divisão e da nossa incapacidade de nos entendermos sobre o que realmente importa.
Uma sociedade que troca os factos por crenças e o pensamento crítico pela defesa cega de narrativas torna-se presa fácil de quem coloca os seus interesses acima dos de todos.
Pensar de forma diferente é legítimo. Manipular a informação, proteger privilégios e sacrificar o bem comum é outra coisa.
Mas vale a pena parar e refletir: estamos a pensar pela nossa própria cabeça ou apenas a defender a narrativa que nos ensinaram a aceitar? Questionamos os factos ou rejeitamo-los simplesmente porque contrariam aquilo em que acreditamos? E quem beneficia realmente quando estamos demasiado ocupados a discutir uns com os outros?
O problema não é termos opiniões diferentes. É deixarmos de procurar a realidade comum.
Porque os interesses particulares podem viver de costas voltadas para a sociedade, mas as consequências acabam por ser pagas por todos.
Está na hora de sair das bolhas, questionar as narrativas, exigir transparência e colocar o interesse público acima dos interesses instalados.
Afinal, uma sociedade mais justa não se constrói com pessoas que pensam todas da mesma maneira, mas com cidadãos capazes de pensar, questionar e não aceitar tudo sem reflexão.
A pergunta é simples: estamos a contribuir para uma sociedade mais consciente e livre ou, sem nos apercebermos, estamos a ajudar a manter tudo exatamente como está?
Gualter Sousa
Dirigente Regional do CHEGA Açores no Pico

