Portugal vive um paradoxo: nunca houve tanta informação disponível e, ainda assim, cresce a sensação de que o essencial passa despercebido. Entre polémicas menores e ruído mediático constante, decisões estruturais acabam diluídas no debate superficial.
É neste contexto que deve ser entendida a nomeação de Luís Neves para Ministro da Administração Interna no governo de Luís Montenegro.
A questão não é a competência técnica do novo ministro, mas o simbolismo político. Luís Neves liderava a Polícia Judiciária durante investigações que envolveram o primeiro-ministro. O processo foi arquivado e, pouco tempo depois, o diretor da PJ é promovido a ministro. Pode ser legal, mas em política não basta cumprir a lei — é essencial preservar a confiança pública e evitar qualquer sombra sobre a independência das instituições.
Montenegro prometeu rutura com a governação de António Costa, prometeu transparência e mudança. No entanto, ao integrar no seu governo uma figura escolhida anteriormente por um executivo socialista para liderar a PJ, reforça a perceção de continuidade do sistema.
O problema é simples: quando os mesmos protagonistas circulam entre governos de diferentes cores, instala-se a ideia de que a alternância política pouco altera as estruturas reais de poder. Para muitos cidadãos, PS e PSD parecem cada vez mais duas faces da mesma moeda.
Talvez não exista qualquer acordo oculto. Mas a política vive de sinais, e este sinal é claro: fragiliza o discurso da rutura, alimenta o cinismo e aprofunda a desconfiança nas instituições.
No fim, a questão não é jurídica. É política e moral.
E é na confiança dos portugueses que reside o verdadeiro custo desta decisão.
Gualter Sousa
Dirigente do CHEGA Pico

