InícioOpiniãoAUTONOMIA REGIONAL: «O FILHO ADULTO QUE AINDA NÃO SAIU DE CASA»

AUTONOMIA REGIONAL: «O FILHO ADULTO QUE AINDA NÃO SAIU DE CASA»

Essa foi uma expressão que ouvimos numa palestra sobre a Autonomia. Uma frase dura, mas que nos obriga a pensar: que Autonomia é esta que temos hoje?
É verdade que os Açores mudaram muito nos últimos cinquenta anos. As condições de vida melhoraram, há mais acesso à educação, à saúde, às infraestruturas e existe um Parlamento Regional que representa institucionalmente o povo açoriano. Mas a pergunta mantém-se: seremos verdadeiramente livres? Ou continuamos dependentes de decisões externas para quase tudo aquilo que realmente importa?
Os Açores têm três grandes problemas: transportes, transportes e transportes. É no transporte aéreo, marítimo e terrestre que se mede a verdadeira dimensão de uma Região Autónoma. É aí que uma população (não gostamos de dizer «povo») sente se vive integrado ou isolado. Seja na ligação ao continente europeu, entre ilhas ou até de cada ilha, a mobilidade continua a ser o maior bloqueio ao desenvolvimento açoriano.
No transporte aéreo já pouco há a dizer que não tenha sido dito. Enquanto houver quem olhe apenas para o seu umbigo político e partidário, em vez de olhar para os Açores como um todo, dificilmente haverá uma solução séria e duradoura. Continuamos presos a remendos, a improvisos e a decisões tomadas sem uma visão estratégica de futuro.
No transporte marítimo, o cenário também está longe do desejável. O transporte de mercadorias vai funcionando, mas há ilhas que continuam com graves problemas nos seus portos. Uns porque simplesmente não funcionam como deviam, outros porque foram mal planeados e outros porque as obras parecem feitas «às três pancadas».
E isto faz lembrar aquilo que foi referido nesta palestra sobre os primeiros pensadores da Autonomia: eram homens estudiosos, ambiciosos (não para si, mas para o bem público) e visionários. Tinham a coragem de ir ao estrangeiro estudar modelos semelhantes aos nossos, para trazer ideias e progresso aos Açores. Hoje, muitas vezes, parece faltar essa ambição política. O que de certeza não falta, é a mania de que quando chegam a Secretários e ou Diretores, sabem tudo.
E depois temos o transporte terrestre. Em pleno Século XXI, ainda há crianças a apanhar autocarros às seis da manhã para conseguirem chegar ao estabelecimento de ensino. Isto não deveria acontecer numa Região que se diz moderna e autónoma. Não é progresso, é resignação.
Ao mesmo tempo, os açorianos vivem esmagados por impostos atrás de impostos. O garrote económico vindo de Lisboa faz-se sentir há décadas. Sempre fomos tratados como uma colónia atlântica e, infelizmente, continuamos muitas vezes a sê-lo. E o mais grave é que muitos dos nossos responsáveis políticos parecem contentar-se com migalhas.
Os exemplos estão à vista de todos. Tivemos três fábricas de álcool: desapareceram. Tivemos a fábrica do açúcar: desapareceu. Tivemos a cultura do tabaco: desapareceu. Tudo desaparece nesta Região. E desaparece, muitas vezes, por falta de coragem política, de visão estratégica e de defesa séria dos interesses açorianos. Vão resistindo os produtores de leite, não se sabe bem como, enfrentando dificuldades constantes e sobrevivendo quase por teimosia e amor à terra.
Enquanto isso, o que realmente não falta são grupos de trabalho, para estudar esses problemas e as soluções. São os tais Conselhos de Ilha, que de lá pouca coisa sai. E mais “N” organismos que não servem para nada a não ser colocar gente que teima em não entender que o tempo já passou.
Na educação, a realidade também preocupa. A educação é a base de qualquer sociedade desenvolvida, mas hoje vive-se uma preocupante perda de exigência. Há professores que, após saírem da Universidade, nunca mais abrem um livro e muitas vezes quando falam é uma autêntica desgraça. E uma sociedade que deixa de valorizar o conhecimento está condenada à estagnação.
Na saúde, o eterno calcanhar de Aquiles. Nunca há dinheiro suficiente para hospitais, centros de saúde, lares e creches. Os problemas acumulam-se, os profissionais desgastam-se e as populações desesperam entre listas de espera e falta de respostas.
Nas instituições financeiras, a tal boa herança que foram os bancos açorianos, esfumaram-se. Nunca se soube nem houve coragem política para os proteger. Resta-nos a CEMAH, com uma réstia de açorianidade.
Na habitação, nem sabemos bem como defini-la. Simplesmente foi abandonada pelo Governo. Praticamente não se fazem casas. As cooperativas de habitação, hoje em dia, são algo cômico.
Temos instituições autónomas, mas continuamos dependentes em excesso. Temos símbolos autonómicos, mas ainda nos falta verdadeira liberdade de decisão. Continuamos a ser vistos como aquela colónia no meio do Atlântico, à qual se vão dando soluções temporárias para a mobilidade e promessas feitas em corredores e «vãos de escada», apenas para adiar os problemas por mais algum tempo.
A pergunta que fica é esta: os açorianos conseguirão algum dia alcançar uma Autonomia plena, séria e respeitada?
É difícil saber. Mas lá dentro do nosso intelecto, todos sabemos a resposta. Mas uma coisa é certa: enquanto faltar coragem política, ambição estratégica e verdadeira defesa dos Açores, a nossa Autonomia continuará incompleta
Garantidamente que ainda falta cumprir a Autonomia.

João Luís da Câmara
Dirigente CHEGA Ribeira Grande

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