Assinalar os cinquenta anos da Autonomia dos Açores é, para mim, um momento de orgulho, mas também de responsabilidade. Orgulho, porque a Autonomia foi uma conquista histórica do nosso povo. Responsabilidade, porque esta data não pode servir apenas para discursos bonitos, cerimónias e balanços complacentes. Tem de servir para perguntar, com frontalidade: estamos hoje à altura da Autonomia que herdámos?
Eu acredito profundamente no valor da Autonomia. Acredito nela como conquista política, como afirmação da identidade açoriana e como instrumento essencial para governar melhor uma Região com características únicas, marcada pela distância, pela fragmentação territorial e por desafios permanentes que o continente nunca compreenderá por inteiro. A Autonomia fez justiça aos Açores. Reconheceu-nos voz própria, capacidade de decisão e dignidade política.
Mas também acredito que a melhor forma de honrar a Autonomia não é tratá-la como uma peça de museu. É fazê-la viver com coragem, exigência e visão de futuro.
Ao longo de cinco décadas, a Autonomia permitiu avanços importantes. Deu-nos instituições próprias, estabilidade política e capacidade para decidir em áreas fundamentais para a vida dos açorianos. Isso não pode ser ignorado. Mas também não podemos ignorar aquilo que falhou. E falhou demasiado. Em muitos momentos, a Autonomia foi usada mais para proteger o sistema do que para servir as pessoas. Houve excesso de propaganda e falta de reforma. Houve acomodações, dependências e oportunidades desperdiçadas.
É aqui que temos de ser claros: a Autonomia não existe para sustentar máquinas partidárias, nem para alimentar redes de influência, nem para justificar o atraso com discursos inflamados sobre Lisboa. A Autonomia existe para melhorar a vida dos açorianos. Existe para criar desenvolvimento, fixar jovens, fortalecer a economia, qualificar serviços públicos e dar resposta concreta aos problemas reais de quem vive nestas ilhas.
É esse o desafio do nosso tempo.
Os Açores não precisam de uma Autonomia cansada, fechada sobre si própria ou refém dos vícios do costume. Precisam de uma Autonomia moderna, reformista, exigente e capaz de gerar resultados. Uma Autonomia que saiba defender a Região, mas que também saiba olhar para dentro e corrigir o que está mal. Uma Autonomia que não tenha medo da transparência, do escrutínio e da responsabilidade. Porque autonomia a sério não é pedir tudo e justificar tudo. É decidir e responder pelos resultados.
Eu olho para estes cinquenta anos com respeito pelo passado, mas sobretudo com esperança no futuro. Não vejo a Autonomia como uma meta alcançada. Vejo-a como uma base de trabalho. Como uma ferramenta que continua a precisar de coragem política, ambição e seriedade para cumprir plenamente a sua missão.
Os açorianos merecem mais. Merecem uma Região que confie nas suas capacidades, que valorize o mérito, que crie riqueza e que se prepare para o futuro sem medo. Merecem uma Autonomia que não seja apenas celebrada, mas concretizada todos os dias na governação, na economia, na mobilidade, na saúde, na educação e nas oportunidades dadas às novas gerações.
Cinquenta anos depois, a pergunta decisiva continua em cima da mesa: queremos uma Autonomia para gerir a dependência ou uma Autonomia para construir futuro?
Eu sei de que lado estou.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Fonte: Tribuna das Ilhas

