O que se viu na Assembleia da República no passado dia 2 de Abril na comemoração da aprovação da Constituição da República Portuguesa, foi mais do que um episódio lamentável. Foi a confirmação de algo que muitos portugueses já perceberam há muito: existe uma elite política que não sabe lidar com o contraditório.
Durante décadas, uma geração saída do pós-revolução instalou-se num pedestal. Apresentaram-se como guardiões da democracia, como referência moral e intelectual do país. E sim, tiveram o seu mérito. Mas, mérito passado não é salvo-conduto eterno. Não são heróis fundadores, não são D. Afonso Henriques, e muito menos estão acima da crítica.
O problema é que se habituaram a não serem questionados. Criaram um sistema onde o respeito rapidamente se confundiu com reverência, e a discordância com ignorância. Durante anos, quem ousava levantar a voz era catalogado, desvalorizado ou simplesmente ignorado, como aquele miúdo que quer dar a sua opinião à mesa, mas é silenciado, porque acham que a sua opinião não vale nada e que os mais velhos é que têm sempre razão. Agora, quando finalmente são confrontados, porque o miúdo já cresceu, quando ouvem aquilo que não querem ouvir, levantam-se e saem.
Abandonar o Parlamento. Fugir ao debate. Não saber ouvir opiniões diferentes, nem querer perceber que Portugal já mudou, não é elevação democrática, é fragilidade, e mais do que tudo, é arrogância política ferida.
Ainda têm a ousadia de apontar o dedo a quem fala mais alto, a quem rompe com o tom politicamente confortável. A verdade é simples: não é o volume que incomoda, é o conteúdo. O Portugal que «eles» idealizaram, «aqueles» que abandonaram as bancadas, está a ruir. Durante demasiado tempo, o sistema protegeu os seus. Criaram-se redes, influencias, mecanismos de auto preservação. A política tornou-se, em muitos casos, um circuito fechado, distante da realidade de quem trabalha, de quem paga impostos, e agora exige-se responsabilidade.
Há uma mudança em curso, e essa mudança não se limita à política. Estende-se às universidades, muitas delas transformadas em espaços de pensamento único, onde a diversidade de opinião é cada vez menos tolerada. Um sintoma claro de uma elite que prefere o conforto ideológico ao confronto honesto.
Há que dizer sem medo: a Constituição não é um dogma. Não é um texto sagrado imune a uma revisão. Nos dias de hoje, tudo deve ser discutido, mesmo as regras do próprio sistema.
O que está verdadeiramente em causa não é a liberdade, é o monopólio dela. Não é a igualdade, é a selectividade na sua aplicação. Querem liberdade? Então aceitem de uma vez por todas o contraditório. Querem respeito? Então respeitem quem pensa diferente. Querem autoridade moral? Então deixem de fugir quando são confrontados.
O tempo da idolatria acabou. Ninguém é eterno. Ninguém é insubstituível. E ninguém, está acima do escrutínio. E quanto mais cedo essa velha elite perceber isso, menos violento será o embate com a realidade.
João Luís R. da Câmara
Dirigente CHEGA Ribeira Grande

