Só alguém muito ingénuo — ou deliberadamente distraído — pode acreditar que o recém-assinado acordo do Mercosul, baseado na eliminação ou redução de tarifas aduaneiras, é um simples tratado comercial sem ligações ao colapso político e económico da Europa. Se assim fosse, como se explica que este acordo tenha ficado enterrado numa gaveta durante 25 anos e, de repente, seja ressuscitado à pressa, quase às escondidas?
A resposta é simples: desespero.
Este acordo serve, acima de tudo, países como a Alemanha, cuja indústria automóvel está a afundar-se a olhos vistos, incapaz de competir no mercado dos veículos elétricos dominado pela China — com a BYD à cabeça — e pela Tesla. Os carros alemães deixaram de ser competitivos na própria Europa, esmagados por regulamentações absurdas, impostos climáticos suicidas e uma obsessão ideológica que destrói tudo o que toca. Precisam, por isso, de despejar os seus Mercedes noutros mercados, custe o que custar.
Ao mesmo tempo, Bruxelas não pode hostilizar verdadeiramente a China, porque depende dela para continuar a financiar a dívida pública de uma Europa tecnicamente falida, que consome muito mais do que produz e vive sustentada por crédito, impressão de dinheiro e ilusões verdes.
E quem paga a fatura? Os agricultores europeus, como sempre.
Durante décadas, foram esmagados por uma máquina burocrática doentia, sufocada por obsessões climáticas, ambientais e ideológicas: regras impossíveis sobre pesticidas, bem-estar animal, emissões, fertilizantes, áreas de pousio, relatórios, autorizações, taxas e mais taxas. Mas, de repente, tudo isso deixa de importar quando chega a hora de trocar automóveis alemães por carne, cereais e soja vindos da América do Sul — produzidos sem cumprir uma fração das regras impostas fanaticamente aos nossos agricultores.
É uma fraude moral e uma traição política.
Os agricultores europeus são tratados como criminosos porque as vacas arrotam, porque “aquecem o planeta”, porque usam fitofármacos que Bruxelas decidiu demonizar — enquanto mais dos 90% das substâncias ativas para agricultura já foram banidas na Europa, a maioria continua legal e a ser usada na agricultura nos países do Mercosul – exatamente os países que nos vão passar a vender cada vez mais produtos agrícolas. É o cúmulo da hipocrisia: proíbe-se cá o uso, mas importa-se de lá sem problema.
A União Europeia gaba-se de ter reduzido as emissões de CO₂ em cerca de 37%, mas à custa da desindustrialização, do encerramento de centrais, da fuga de empresas e da miséria energética. No mesmo período, a China aumentou as suas emissões em cerca de 200% e a Índia em mais de 180%. O resultado está à vista: crescimento económico europeu anémico, entre 1,6% e 1,7%, enquanto China e Índia crescem a ritmos entre 6% e 9%. Mas Bruxelas continua a fingir que salva o planeta, enquanto os outros vão criando riqueza e salvando as suas economias.
O clima não conhece fronteiras nem regulamentos europeus. Reduzir emissões na Europa é completamente inútil quando os maiores poluidores do mundo ignoram deliberadamente estas agendas. A única coisa que a Europa consegue é empobrecer os seus cidadãos, destruir a sua base produtiva e tornar-se dependente do exterior para tudo — da energia aos alimentos, dum simples martelo a uma máscara. Só produzimos burocracia, corrupção e “agendas” – já ninguém aguenta.
Quando o principal motor da economia europeia, a Alemanha, começa a gripar, a solução encontrada não é repensar políticas falhadas, mas sim sacrificar agricultores, abrir fronteiras comerciais e, se necessário, reinventar-se como economia de guerra. Tudo serve para manter a ficção de um projeto europeu funcional.
Depois de terem destruído a indústria europeia em nome de agendas climáticas radicais que servem interesses obscuros e não o ambiente, a elite europeia prepara-se agora para liquidar a agricultura — o último setor produtivo que ainda resistia embora com dificuldades.
Enquanto isso, o resto do mundo ri-se desta Europa à deriva, manietada por interesses obscuros e muitas vezes corruptos. Aqui apregoa-se a salvação do planeta através de agendas climáticas com nomes pomposos, exige-se cada vez mais alimentos saudáveis, persegue-se os agricultores como bandidos, apoia-se a agricultura com subsídios (esmolas) para terem alimentos baratos, mas entre ter comida e vender mercedes (Alemanha) e uns pipos de vinho (Portugal), venderam a agricultura europeia por 30 patacas.
Um dia, quando a Europa estiver oficialmente falida — se é que já não está —, estas agendas climáticas, estas políticas “woke” e estas imposições ideológicas acabarão todas no mesmo sítio: numa gaveta, exatamente como já fizeram os Estados Unidos, a China e a Índia. A diferença é que, nessa altura, poderá já ser tarde demais para salvar a agricultura europeia.
Vá lá que ao menos a Federação Agrícola dos Açores vai fazendo o seu trabalho de indignação, tendo a clara perceção que o facto de os produtos agrícolas agora estarem a bom preço na Europa, nada disso vai acontecer no futuro com a concorrência desleal de países que produzem sem o pesado “caderno de encargos europeu” – há sempre uma bonança antes da tempestade. E quando vier a tempestade já de nada servirão os discursos redondos dos políticos do costume.
Sendo a agricultura Açoriana potencialmente uma das mais prejudicadas com este acordo da Mercosul, vem o Governo Regional dos Açores, mais uma vez, com aquele discurso mole para boi dormir. Mostra-se preocupado, manda mensagens, faz notas de imprensa, mas mais uma vez os seus “amigos” do PSD no continente lavam as mãos como Pilatos e nem defendem a agricultura nem as medidas que serviriam para mitigar esta crise anunciada – como é o caso do POSEI.
Tem sido assim em toda a linha – este governo de Montenegro ficará na história como o pior governo de sempre para os Açores. Luís Montenegro deve achar que os agricultores Açorianos estão a viver acima das suas possibilidades e por isso precisam de ser castigados – como se defendia em 2015 em muitas áreas no governo de Passos Coelho em que Luís Montenegro era seu líder parlamentar.
Balha-nos Deus, como diz Herman José!
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores




