Há datas que marcam calendários. Há outras que marcam povos.
O 6 de Junho de 1975 é uma dessas datas gravadas na memória coletiva dos Açorianos. Nesse dia, milhares de homens e mulheres saíram à rua em São Miguel para defender aquilo que sentiam estar ameaçado: a sua liberdade, a sua identidade, a sua forma de vida e o direito de decidir o próprio futuro.
Ao contrário do que alguns tentaram fazer crer ao longo dos anos, o 6 de Junho não foi apenas uma manifestação da lavoura. Foi muito mais do que isso.
Foi o grito de um povo que se sentia abandonado por Lisboa, esmagado pelas dificuldades económicas e preocupado com o rumo político que Portugal atravessava no período conturbado que se seguiu ao 25 de Abril.
Foi uma demonstração inequívoca de que os Açorianos não estavam dispostos a aceitar passivamente decisões impostas à distância por quem desconhecia a realidade das nossas ilhas.
A História prova-o hoje com clareza: o 6 de Junho desempenhou um papel determinante na afirmação da identidade açoriana e no processo que viria a conduzir à consagração da nossa Autonomia Política.
Sem a coragem daqueles homens e mulheres que tiveram a ousadia de levantar a voz, talvez a história dos Açores tivesse sido diferente. Talvez a Autonomia nunca tivesse alcançado a força que viria a conquistar. Talvez continuássemos a ser vistos apenas como uma periferia distante, e não como um povo com identidade própria, cultura própria e aspirações legítimas.
Por isso, causa-me alguma estranheza que os Açores continuem sem assinalar oficialmente esta data com a importância que ela merece.
Celebramos o Dia dos Açores na Segunda-Feira do Espírito Santo — uma tradição profundamente enraizada na alma do nosso povo e que merece todo o respeito. Mas essa celebração tem uma dimensão sobretudo religiosa e cultural.
O 6 de Junho possui um significado diferente: político, histórico e identitário. Representa o momento em que os Açorianos mostraram ao país e ao mundo que estavam dispostos a lutar pelos seus direitos, pela sua dignidade e pela sua terra.
Nenhuma outra data simboliza de forma tão clara a afirmação da consciência autonómica açoriana. Nenhuma outra data representa de forma tão evidente a coragem coletiva de um povo que recusou ficar calado.
Passados mais de cinquenta anos, os desafios são diferentes, mas muitas das preocupações permanecem. Continuo a assistir ao excesso de centralismo, à falta de compreensão das especificidades das Regiões Autónomas e a decisões tomadas longe dos Açores por quem raramente conhece a realidade do nosso arquipélago.
Recordar o 6 de Junho não é, por isso, apenas prestar homenagem ao passado. É também afirmar que os Açorianos continuam a exigir respeito. Que continuam a defender a sua identidade. Que continuam a querer mais autonomia, mais capacidade de decisão e mais liberdade para construir o seu futuro.
Está na altura de reconhecer oficialmente aquilo que muitos de nós já sentimos há décadas.
O 6 de Junho deveria ser consagrado como o verdadeiro Dia dos Açores.
Porque foi nesse dia que a terra gritou. Porque foi nesse dia que um povo se levantou. E porque foi nesse dia que os Açores mostraram que jamais aceitariam deixar de ser senhores do seu próprio destino.
Acima dos Açores, só Deus e o Divino Espírito Santo.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

