Ontem, o céu parou por alguns instantes. O eclipse chamou a atenção de todos e fez-nos olhar para cima, para um fenómeno que, há cem anos, ainda podia provocar medo, admiração e muitas perguntas. Naquela época, a ciência ainda não tinha a mesma capacidade de explicar todos os acontecimentos que hoje conseguimos compreender com precisão. Para muitos, um eclipse podia parecer um sinal, um aviso ou até um acontecimento sobrenatural.
Hoje sabemos explicar o que acontece no céu. A ciência permite-nos prever eclipses, compreender os movimentos dos astros e distinguir aquilo que é um fenómeno natural daquilo que é apenas uma interpretação baseada no medo ou na falta de conhecimento.
Mas existe uma ironia no nosso tempo: conseguimos explicar o que acontece no céu, mas muitas vezes não conseguimos — ou não queremos — enxergar o que acontece aqui em baixo.
O eclipse de ontem fez-me pensar na forma como vivemos atualmente. A ciência evoluiu, a informação está ao alcance de quase todos e temos ferramentas para conhecer os acontecimentos quase em tempo real. Mesmo assim, continuamos muitas vezes cegos perante problemas que estão diante dos nossos olhos: corrupção, desigualdade, desperdício de dinheiro público e decisões políticas que prejudicam a própria população.
Há cem anos, alguém podia olhar para o céu e não compreender por que razão o Sol desaparecia durante alguns minutos. Hoje compreendemos. Mas, quando se trata de política, parece que muitas pessoas preferem não fazer perguntas. Não querem saber quem toma determinadas decisões, quem beneficia delas, quanto custam ou quais serão as consequências para a sociedade.
É como se o eclipse tivesse mudado de lugar. Antes, a escuridão estava no céu. Hoje, muitas vezes, a escuridão está na nossa capacidade de questionar.
Não se trata de dizer que todos os políticos são iguais ou que todas as decisões políticas são erradas. Trata-se de não aceitar cegamente aquilo que nos apresentam. Numa democracia, é preciso observar, questionar, comparar informações e cobrar responsabilidades. O cidadão não deve ser apenas espectador; deve ser também alguém atento ao que acontece à sua volta.
O eclipse passa. A luz volta. Mas a nossa responsabilidade permanece.
Talvez essa seja a maior lição do fenómeno de ontem: há coisas que a ciência já conseguiu explicar, mas há outras que dependem de nós para serem vistas. E talvez a verdadeira escuridão dos nossos dias não seja a falta de luz, mas a escolha de fechar os olhos quando a realidade está mesmo diante de nós.
José Brasil
Dirigente Regional do CHEGA Açores em São Jorge

