Tenho acompanhado com atenção o aceso debate em torno da construção de um Hospital Central em Ponta Delgada. Discutir o futuro, mesmo num plano puramente teórico, é sempre salutar.
Porém, quando o debate serve para criar o pânico, gerar ódio, dividir os açorianos ou alimentar partidos moribundos à procura de dividendos políticos, a questão ganha outros contornos.
Ninguém percebeu ainda como se pretende construir um Hospital Central em Ponta Delgada quando as obras de requalificação do HDES, dois anos após o incêndio, continuam por fazer. Em vez de obras, temos uns contentores a que chamam “hospital modular” — solução provisória que vai ficando definitiva.
Alguém acredita que um Governo Regional sem dinheiro para tapar buracos nos caminhos ou reparar escolas a cair de podres vai financiar um Hospital Central — obra megalómana só comparável ao prejuízo da SATA? E mesmo decidindo avançar, entre estudos e projetos, a obra só estaria pronta daqui a uma década.
A narrativa de que o projeto prejudica as outras ilhas não tem suporte nos factos: a radioterapia abriu na Terceira em 2021; em janeiro de 2026 foi inaugurada uma Unidade de Cuidados Intermédios Cardíaca; em abril de 2026 foram anunciados dois robots ortopédicos, um deles para a Terceira. Até hoje nada fechou nem foi deslocalizado para São Miguel.
Mais especialidades não abrem na Horta, na Terceira ou em Ponta Delgada porque o problema não é apenas dinheiro — que também não existe —, mas falta de médicos e competências avançadas que o dinheiro não compra. Entretanto, as obras no HDES continuam paradas e a população fustigada pela inação. Quem tem responsabilidades governativas devia governar todas as ilhas, e não tratar apenas do seu “quintal”.
Os bairristas preferem culpar os outros pelo próprio atraso a apresentar soluções. É sempre mais cómodo fabricar inimigos externos do que fazer uma análise séria dos problemas estruturais da Terceira: falta de investimento privado, imprevisibilidade dos transportes marítimos, subaproveitamento do aeroporto das Lajes, revisão do acordo laboral.
Os bairristas lamentam-se porque São Miguel cresceu mais. A realidade é que os maiores grupos económicos dos Açores estão sediados em São Miguel e têm vindo a adquirir empresas médias e pequenas das outras ilhas — na grande distribuição, na hotelaria, nas rent-a-car. Esse crescimento resulta, em boa parte, de as sedes das grandes empresas privadas e públicas se concentrarem ali.
Nas ilhas mais pequenas é mais difícil fixar médicos e professores, o mercado é menor e os problemas estruturais dos transportes agravam tudo o resto. Acresce que enfrentar a burocracia asfixiante do Estado exige dimensão e “massa crítica” que as ilhas menores raramente têm.
Mas esse crescimento trouxe mais bem-estar? A classe média está melhor? A pobreza diminuiu? A habitação ficou mais barata? Pagam-se melhores salários? Ou apenas os grandes grupos económicos e os amigos do sistema estão mais ricos?
É preciso distinguir entre aqueles que defendem a sua terra e lutam diariamente para investir e criar riqueza e emprego e os outros que usam o bairrismo para sobreviverem eleitoralmente. Será que também vão culpar São Miguel pelo seu fracasso eleitoral?
Há políticos que montam um burro para denunciar o abandono dos caminhos agrícolas. Há partidos que andam às cavalitas de outros para sobreviverem. E há políticos que pensam que os terceirenses são burros e manipuláveis. Querem enganar quem?
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

