Todos os anos o 1.º de Maio chega com o mesmo ritual: discursos, bandeiras, palavras bonitas e promessas recicladas. Mas a pergunta que importa continua sem resposta: o que mudou, na prática, para quem trabalha? Muito pouco. E, em muitos casos, nada.
Sempre defendi uma sociedade justa e equilibrada. E para mim há uma regra básica: uma sociedade justa começa por respeitar quem trabalha. Não é uma ideia complicada. É apenas uma verdade que muitos parecem ter esquecido.
Isso implica justiça social, sim. Mas também justiça laboral , e essa justiça tem de existir dos dois lados: para quem trabalha e para quem cria trabalho. Porque sem empresas não há empregos, e sem trabalhadores não há economia.
O problema é que hoje o trabalho deixou de estar no centro. Foi substituído por discursos fáceis e por uma cultura perigosa onde, demasiadas vezes, se foge ao esforço. Seja pela subsidiodependência que se foi instalando, seja por abusos claros, como o uso indevido de baixas médicas, que acabam sempre por penalizar quem cumpre.
E isto tem de ser dito de forma frontal: não pode valer mais não trabalhar do que trabalhar.
Mas neste dia não me foco nesses casos. Esses resolvem-se com fiscalização séria e coragem política, duas coisas que têm faltado. Hoje falo de quem trabalha. Apenas de quem trabalha.
Falo daqueles que se levantam todos os dias cedo, faça chuva ou faça sol, e vão cumprir. Dos que sustentam famílias, dos que pagam impostos, dos que mantêm esta economia a funcionar, muitas vezes em silêncio, sem reconhecimento e sem margem de erro.
Falo também de quem emprega. De quem arrisca, investe, cria postos de trabalho e mantém portas abertas, mesmo numa economia frágil. Nos Açores, essa realidade é ainda mais dura, com os custos da insularidade, dos transportes e de um contexto económico que muitas vezes sufoca quem quer crescer.
São estes dois lados: trabalhadores e empregadores, os que seguram o país. E são, demasiadas vezes, os mais penalizados.
Entre impostos elevados, custos absurdos e um modelo económico que não permite crescer, o resultado é evidente: trabalha-se muito e ganha-se pouco.
E depois chega o 1.º de Maio.
E com ele chega também uma das maiores hipocrisias do sistema. É, no mínimo, ridículo ver alguns sindicalistas que já não trabalham, que estão afastados da realidade há anos, e cuja principal função parece ser criar bloqueios, ruído e conflito, muitas vezes apenas para justificar o ordenado que recebem, pago precisamente por aqueles que trabalham.
Há exceções? Claro que há.
Há sindicalistas sérios? Sem dúvida.
Mas sejamos honestos: não sei se não são já uma minoria.
Outro problema que ninguém quer enfrentar de frente é a falta de produtividade. Um verdadeiro drama nacional.
Afeta empresas, afeta a função pública e arrasta toda a economia. E, no meio disto tudo, ainda há quem defenda menos dias de trabalho num país que já produz abaixo dos outros. Isto não é progresso. É negar a realidade.
Não vamos melhorar o país trabalhando menos quando já produzimos pouco. Vamos melhorar criando condições para produzir mais, melhor e com mais valor, e, com isso, pagar melhor.
E é aqui que digo algo que pode chocar alguns, mas que faz todo o sentido: o 1.º de Maio nem sequer devia ser feriado. Sim, leu bem.
Num país com níveis de produtividade baixos, com dificuldades estruturais e com uma economia que precisa de crescer, temos demasiados feriados. E manter mais um, apenas para alimentar discursos e simbolismos vazios, não ajuda quem trabalha, prejudica.
Respeitar o trabalhador não é dar-lhe um dia de descanso simbólico. É dar-lhe melhores condições de vida ao longo de todo o ano.
É por isso que precisamos de uma reforma laboral a sério. Não uma reforma ideológica. Não uma reforma feita em gabinete. Uma reforma justa: para quem trabalha e para quem emprega
Que simplifique, que dê previsibilidade, que incentive a produtividade e que valorize o mérito.
E há injustiças que não podem continuar a ser ignoradas. Uma delas é evidente: mulheres a receber menos do que homens em funções iguais. Isto não é aceitável. Trabalho igual tem de significar salário igual, sem desculpas.
Se queremos levar o Dia do Trabalhador a sério, então temos de parar com a hipocrisia e começar a agir.
Valorizar o trabalho com melhores salários.
Reduzir a carga fiscal sobre quem produz.
Apoiar quem cria emprego.
Combater abusos sem hesitações.
Exigir mais produtividade com justiça.
Porque no fim do dia, a verdade é simples , e não há discurso que a esconda: sem trabalho não há riqueza, sem riqueza não há salários, e sem salários dignos não há futuro.
Para mim, o 1.º de Maio não é o dia de todos. É o dia de quem trabalha.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

