Com o 25 de Abril de 1974, Portugal passou de uma ditadura para um regime democrático. Esse é um facto histórico que deve ser reconhecido. Mas também é verdade que a história não foi tão simples, tão limpa e tão perfeita como alguns gostam de contar.
Portugal precisava de pôr fim à ditadura, à censura e à falta de liberdade. Isso é indiscutível. Mas reconhecer a importância do 25 de Abril não pode significar branquear tudo o que aconteceu depois.
No período que se seguiu à revolução, Portugal correu um risco sério de cair numa deriva revolucionária de inspiração comunista, ou, na melhor das hipóteses, num socialismo radical alinhado com modelos que, por esse mundo fora, trouxeram miséria, repressão e falta de liberdade.
Houve empresas nacionalizadas, campos ocupados, perseguições políticas, instabilidade permanente e uma descolonização feita à pressa, com consequências dramáticas para milhares de portugueses. Esta também é parte da nossa história. Pode ser incómoda, mas não pode ser escondida debaixo do tapete dos discursos oficiais.
Por isso é que é preciso dizê-lo com clareza: o 25 de Abril abriu a porta à liberdade, mas foi o 25 de Novembro de 1975 que travou a deriva revolucionária e consolidou o caminho para uma democracia pluralista, constitucional e verdadeiramente livre.
Foi esse caminho que permitiu a afirmação da democracia representativa, das eleições livres, do pluralismo partidário e também das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. A nossa autonomia nasce desse percurso constitucional, e por isso deve ser defendida com responsabilidade, seriedade e verdade.
É certo que ganhámos liberdade. Mas a liberdade não é propriedade de alguns. Não pertence aos chamados “donos de Abril”. Não pertence à esquerda, nem aos partidos do sistema, nem aos comentadores que distribuem certificados de democracia conforme a conveniência política do momento.
A liberdade é de todos. É também de quem pensa diferente. É também de quem critica. É também de quem não aceita viver calado perante aquilo que está mal.
Porque liberdade não é apenas poder votar de quatro em quatro anos. Liberdade é poder viver com dignidade. É ter acesso à saúde em tempo útil. É conseguir pagar uma casa. É poder trabalhar e sentir que o esforço compensa. É não ver os jovens obrigados a emigrar porque o país não lhes oferece futuro. É não esmagar quem trabalha com impostos para sustentar um Estado pesado, caro e muitas vezes injusto.
Hoje há quem celebre Abril com cravos na lapela, discursos bonitos e palavras muito bem ensaiadas. Mas a pergunta que se impõe é simples: está mesmo tudo a correr bem?
Está tudo a correr bem quando temos portugueses sem médico de família?
Está tudo a correr bem quando há famílias que trabalham e mesmo assim não conseguem chegar ao fim do mês?
Está tudo a correr bem quando os jovens não conseguem comprar casa?
Está tudo a correr bem quando quem produz, trabalha e paga impostos sente que é sempre chamado a suportar os erros dos mesmos de sempre?
Não. Não está tudo a correr bem.
E dizer isto não é ser contra a liberdade. Pelo contrário. É levar a liberdade a sério.
Celebrar o 25 de Abril não pode ser repetir slogans gastos. Tem de ser olhar para Portugal com coragem. Reconhecer o que foi conquistado, sim, mas também denunciar aquilo que falhou.
A liberdade não vive de cerimónias. Vive de justiça, de responsabilidade, de verdade e de resultados concretos na vida das pessoas.
Por isso, neste 25 de Abril, importa dizer sem medo: respeitamos a liberdade conquistada, mas recusamos que ela seja usada como arma política contra quem pensa diferente.
O 25 de Abril merece respeito.
O 25 de Novembro merece reconhecimento.
E os portugueses merecem muito mais do que discursos bonitos.
Merecem um país onde a liberdade seja real, inteira e para todos.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

