Início Autarquias CAPITAL PORTUGUESA DA CULTURA DOS OUTROS

CAPITAL PORTUGUESA DA CULTURA DOS OUTROS

0

Mesmo depois de ter sido impedido de apresentar um Voto de Protesto relativamente ao espetáculo inaugural da PDL26, o vereador do CHEGA na Câmara Municipal de Ponta Delgada, José Pacheco, não deixou passar em claro a hipocrisia política instalada na condução deste processo.

Ao ser confrontado com a apresentação, pelo Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, de um Voto de Congratulação sobre o mesmo evento que anteriormente havia sido alvo de duras críticas, nomeadamente pela falta de programação concreta, pela exclusão de várias expressões culturais do concelho e pela própria atuação da comissária, José Pacheco foi claro: em política não pode haver duas narrativas.

Não é aceitável que, em reuniões internas, se critique duramente um projeto e, perante as câmaras e os holofotes, se tente vender uma imagem “cor-de-laranja”, como se tudo estivesse a correr bem. Isso não é liderança. É cinismo político.

Esta duplicidade de discurso é reveladora de má governação, de falta de coragem política e de uma tentativa clara de empurrar responsabilidades para terceiros, num projeto que vai custar aos contribuintes 5,3 milhões de euros, a que acrescem centenas de milhares de euros em patrocínios privados, sem que exista verdadeiro escrutínio público.

Quando o Presidente da Câmara tenta passar a ideia de que a cultura em Ponta Delgada só agora terá um verdadeiro impulso, José Pacheco recordou o óbvio: a cultura já existe nos Açores há séculos, em múltiplas formas, expressões e tradições. O que não pode existir é a tentativa de justificar o injustificável, como se tudo o que foi feito até agora não tivesse valor.

A realidade não se esconde. E a verdade é simples: pouco ou nada se sabe da programação do primeiro trimestre da PDL26, sendo esta composta, em grande parte, por aquilo que o vereador do CHEGA classificou como “ilustres desconhecidos”, afastados da realidade cultural do concelho e do arquipélago.

Mais grave ainda é a fraca, ou quase inexistente, envolvência dos agentes culturais locais, das freguesias, das associações e de todos aqueles que, ao longo de décadas, têm mantido a cultura viva em Ponta Delgada e nos Açores, muitas vezes com fracos apoios, sem palcos e sem reconhecimento.

Em contrapartida, o que se vê é mais do mesmo: os “abrileiros” do costume, com agendas ideológicas bem conhecidas, a serem chamados para espetáculos que custam dezenas de milhares de euros, sem critérios claros, sem transparência e sem qualquer avaliação séria por parte dos legítimos representantes eleitos do povo.

A incoerência torna-se ainda mais evidente quando, no mesmo dia em que é aprovado um Voto de Congratulação ao guitarrista Nuno Bettencourt pelo Grammy alcançado, se constata que nem ele, nem o seu irmão Luís Gil Bettencourt, ambos artistas de reconhecido mérito e com ligação aos Açores, foram sequer convidados a integrar a programação da PDL26.

Isto diz tudo. Num dia elogia-se. No outro ignora-se. Hipocrisia pura.

Para o CHEGA em Ponta Delgada, torna-se cada vez mais claro que esta será uma Capital Portuguesa da Cultura feita para os de fora, para os amigos da comissária e para os círculos habituais, enquanto os artistas locais, os agentes culturais, as freguesias e os autores açorianos ficam com as migalhas que caem da mesa.

Entretanto, o Presidente da Câmara vai varrendo as responsabilidades para o Coliseu ou para a comissária, principescamente paga, cerca de 6.000 euros mensais, enquanto tenta colher louros de um projeto sobre o qual não decide, não manda e aparentemente não opina, mas que fica sempre bem assumir louvores perante as câmaras de televisão.

O que nos espera é um ano inteiro de carnaval político, travestido de cultura, onde de cultura açoriana pouco ou nada haverá.

Com o CHEGA não contem para o silêncio cúmplice. Não contem para a encenação. E muito menos contem para calar aquilo que alguns parecem ter dificuldade em aceitar:
A Cultura Açoriana existe, resiste e não precisa de tutelas ideológicas nem de palcos artificiais pagos a peso de ouro.