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VENTOS DO NORTE

Já diz a sabedoria popular: “Vento de norte é bom até começar a fazer estragos”. De facto, o que se sentiu nos últimos quatro anos aqui na costa norte foi bem mais do que um simples vento. Foi uma ventania forte, com rajadas carregadas de maus odores.

É preciso que a população perceba que cabe a nós travarmos estes ventos. É urgente acabar com o caciquismo, a corrupção sistemática, os constantes escândalos e o saque permanente ao erário público.

Recordo-me de um caso recente na costa norte: uma mãe com um filho com dificuldades cognitivas enfrentava um despejo iminente, sem ter alternativa de habitação, quer pela escassez de casas disponíveis na vila onde reside, quer pelos preços exorbitantes praticados no mercado de arrendamento. É revoltante saber destas situações e constatar simultaneamente o uso indevido e irresponsável dos recursos públicos.

Com a aproximação da primavera e do verão, e das eleições autárquicas no final deste período, é previsível voltarem os gastos desmedidos. Como escreveu um cidadão numa rede social: “vamos ‘estarraçar’ esse dinheiro”. Começando pelas freguesias, é lamentável o que passa um presidente de Junta que se mantém honesto e empenhado no desenvolvimento local, muitas vezes obrigado a “mendigar” apoios junto dos presidentes de câmara ou vereadores, alguns com qualificações duvidosas para os cargos que ocupam. Infelizmente, esta é a realidade que temos.

É incompreensível faltar dinheiro para uma mãe ter acesso a uma habitação digna, enquanto se distribuem verbas às juntas para participarem numa festa da flor, que nada acrescenta de concreto à cidade, sobretudo quando as flores utilizadas são importadas da Madeira. E não se fica por aqui: marchas populares recebem financiamentos que poderiam facilmente cobrir meses de renda para famílias carenciadas.

Vivemos num concelho em forte crescimento populacional, mas que não oferece condições concretas para os seus habitantes. A cultura local limita-se frequentemente a campos de futebol, enquanto associações culturais, como as filarmónicas, imploram por espaços dignos. As paisagens são magníficas, mas a gestão das mesmas, nomeadamente dos trilhos, deixa muito a desejar.

O famoso Festival do Monte Verde, já conhecido além-fronteiras, é outro exemplo desta má gestão financeira, com intervenientes envolvidos em processos judiciais por má utilização de fundos públicos. A população local sofre antecipadamente sabendo que, durante o festival, não haverá descanso para adultos ou crianças devido ao ruído constante até de madrugada. Será isto cultura?

Primavera e verão trazem tréguas, especialmente porque chove menos, permitindo ignorar temporariamente os problemas de drenagem e manutenção urbana. Entretanto, a construção de novos edifícios habitacionais continua a crescer, aumentando o IMI, mas sem qualquer preocupação com infraestruturas básicas como parques de estacionamento. A consequência é o caos diário, com veículos estacionados sobre os passeios, forçando os moradores a manobras difíceis, sobretudo em dias chuvosos.

É inaceitável que se demore quatro anos para asfaltar uma rua, deixando moradores sujeitos a buracos, lama no inverno e poeira no verão, enquanto se desperdiçam recursos em festas medievais que, apesar da sua relevância histórica, não deveriam ser prioridade anual numa cidade sem tradição medieval profunda.

Por outro lado, promovem-se eventos de surf, apelidando o concelho de capital regional da modalidade. Mas a realidade é um evento que atrai poucos praticantes e espectadores, com custos questionáveis face aos benefícios para a comunidade.

Sobre outras iniciativas camarárias, como o gabinete de apoio à homossexualidade, fica a dúvida quanto à sua eficácia e procura real por parte da população que deveria servir. É necessário questionar se estas agendas políticas refletem realmente as necessidades das pessoas ou apenas interesses específicos.

A imposição de projetos duvidosos, que beneficiam poucos em detrimento da maioria, tem de acabar. Os governantes têm de trabalhar em função das necessidades reais da população e não baseados em ideias de alguns iluminados do sistema. Quando um país vive eleições sucessivas devido a corrupção ativa, o futuro torna-se preocupante. Governantes que administram para si próprios, familiares e amigos, têm os dias contados. Chegará o momento em que uma nova geração sem casa própria, emprego digno e perspetiva de futuro lançará esses mesmos governantes pela janela. Na Islândia resultou muito bem.

Está dito!

João Luís R. da Câmara

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