José Manuel Bolieiro é daqueles casos que a ciência política se esforça por explicar, mas não consegue. Enquanto a governação se encaminha para a catástrofe, com a dívida a crescer, a SATA que nem ata nem desata, reformas estruturais na gaveta, turismo em queda, o Hospital do Divino Espírito Santo transformado em parque de contentores, pagamentos a fornecedores em atraso, a habitação num desastre com o chumbo de leis que facilitariam a construção (algumas do Chega), e o governo minado por traições e deslealdades, Bolieiro continua em boa conta, com popularidade muito acima do seu mau governo.
Contrariamente a Francisco César que, por muito que se esforce e muitas propostas que apresente, não consegue descolar daquela imagem de político profissional que nunca trabalhou fora da política e está no cargo por ser filho de quem é, não pelas suas ideias ou competência. Isto apesar de Bolieiro também ser um político profissional, até com mais anos de atividade que César (filho) — recorde-se que vem do tempo de Mota Amaral, tendo iniciado a sua atividade política em 1989, no gabinete do subsecretário regional da Comunicação Social.
A narrativa da AD tem paralelo com as citações bíblicas, até porque, com os sinais que a dívida e a economia dos Açores começam a apresentar, a parte do apocalipse vem mesmo a propósito. De facto, a AD tem apostado, com algum sucesso, em diabolizar o passado, sem incluir os 20 anos de PPD/PSD em que os açorianos estavam tão fartos de compadrio e má governação que votaram no partido da mão fechada, apesar de quase ninguém ser verdadeiramente socialista nos Açores.
Este governo tem-se esforçado por fazer cair no esquecimento as trapalhadas de quase 6 anos. Há sempre alguém da bancada da AD que, perante a má governação atual, vai rebuscar os ficheiros da assembleia, mesmo a cheirarem a mofo, para relembrar que noutros tempos ainda se fazia pior.
Mas Bolieiro tornou-se especialista em sermões, pregando quase diariamente capítulos de um novo evangelho, que inclui a economia azul, as atividades contemplativas, a economia circular, o turismo sustentável, os galardões recebidos aqui e acolá, a excelência dos nossos produtos, a resiliência dos açorianos, a agenda 2030, a transição energética ou digital, a economia aeroespacial em Santa Maria, etc.
Esta arte de evangelizar sobre temas abstratos, uma espécie de teologia moderna, apesar de não pôr pão na mesa dos açorianos, serve de anestesia coletiva. A falta de habitação, as listas de espera na saúde, a dívida a crescer, são meros percalços desta governação gloriosa que, como dizia Paulo Estevão em setembro de 2025, vai duplicar o PIB no final da legislatura — concretizável se tivermos a inflação da Venezuela…
Até quando o governo está a cair de podre, com deslealdades e golpadas, para Bolieiro está tudo bem e recomenda-se. Se Montenegro não cumpre nada, nem quer saber dos Açores, não se mostra indignação, para não ofender ninguém. Aposta-se num diálogo construtivo ou em mais um grupo de trabalho para estudar o assunto.
Dificilmente alguém terá sucesso a atacar politicamente Bolieiro. É quase como atacar um dos apóstolos do evangelho. O problema nunca será dele, mas da oposição, da conjuntura internacional, da dispersão geográfica, ou quiçá das alterações climáticas, que teimam em não trazer turistas para os Açores.
Por isso, o melhor que os açorianos têm a fazer perante mais um discurso otimista de Bolieiro é simples: aceitar e dizer ámen — dói menos.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

