“ENQUANTO EU FOR PRESIDENTE DO CHEGA NÃO HÁ NENHUMA COLIGAÇÃO”
José Pacheco quer duplicar a bancada do CHEGA na Assembleia Legislativa dos Açores em 2028. Em entrevista ao DI, diz que está a preparar-se para ser governo, mas rejeita ser “muleta” de outros partidos.
FOI RECENTEMENTE REELEITO LÍDER DO CHEGA AÇORES, QUAIS SÃO AS SUAS PRIORIDADES PARA ESTE MANDATO?
Vamos continuar o trabalho que já fazíamos antes. Continuamos na implantação nas diferentes ilhas. Nos Açores é sempre ligeiramente mais difícil, são ilhas mais isolados, as pessoas têm mais algum receio, mas nada de extraordinário, faz parte da caminhada. E depois vamos trabalhar nas nossas agendas políticas, por exemplo, os transportes marítimos, os transportes aéreos, a habitação, a saúde… Temos colocado isso no topo da agenda e vamos continuar a fazê-lo.
A BANCADA PARLAMENTAR DO CHEGA NOS AÇORES TEM ATUALMENTE CINCO DEPUTADOS. ASSUMIU COMO META PARA 2028 ELEGER ENTRE 10 A 12. COMO É QUE PRETENDE ALCANÇAR ESTE OBJETIVO NESTES DOIS ANOS?
Já estamos a fazer trabalho de implantação há algum tempo. Já temos algumas pessoas, já temos alguns quadros em diferentes ilhas. É um trabalho que leva tempo e que está a ser feito já há bastante tempo. Não começou agora, nem é para começar agora, é para continuar.
ACREDITA QUE EM 2028 TERÁ CONDIÇÕES PARA DUPLICAR A ATUAL BANCADA PARLAMENTAR?
Sim, temos todas as condições, obviamente, que a última palavra é do povo.
CONCORREU NUMA LISTA ÚNICA E FOI ELEITO COM 74,4% DOS VOTOS. FICOU SATISFEITO COM ESTE RESULTADO? O PARTIDO ESTÁ UNIDO?
Sim, o partido está unido. Obviamente, que há sempre um ou outro descontente, porque não lhe calhou um tacho. Isso é o normal da vida em qualquer partido, não é nada extraordinário.
Muito honestamente, prefiro que seja este resultado do que aqueles resultados de noventas por cento, que parece que estamos na Coreia do Norte. Há pessoas que discordam, é normal. É a democracia a funcionar, fico bastante satisfeito. Renovei a equipa, que também era importante. Incluímos pessoas que tinham chegado ao partido há um ano ou dois. Temos uma equipa muito boa, aliás, conseguimos pôr o Conselho de Jurisdição a funcionar. É ótimo. Estamos a caminhar, é uma caminhada que se faz dia-a-dia.
O PARTIDO CONCORREU PELA PRIMEIRA VEZ A ELEIÇÕES LEGISLATIVAS NOS AÇORES EM 2020. QUE BALANÇO FAZ DESTA EVOLUÇÃO?
Tem sido bastante boa. Aliás, é aquilo que as pessoas nos têm dito, apesar das muitas críticas que vêm dos nossos adversários – até algumas da comunicação social, que acho piada – mas mantivemos a firmeza, não nos desviámos do caminho, continuámos a ter a coragem política necessária para estas coisas. Estamos em crescimento e vamos continuar a crescer.
JÁ DISSE QUE SÓ ACREDITA QUE HAJA ELEIÇÕES EM 2028 PORQUE, NAS SUAS PALAVRAS, O PS SE ACOBARDOU. ACHA QUE ESTE GOVERNO REGIONAL TEM CONDIÇÕES PARA CHEGAR AO FIM DO MANDATO?
Tem condições porque o PS vai pegar na mão ao PSD e vai apoiar tudo e mais alguma coisa. Não vai haver eleições antes disso. Eu não vejo isto como um drama. Acho que até pode ser positivo ao nível de estabilidade. Agora, não podem é questionar o Chega sobre esta situação. Têm de questionar o PS, porque depende do PS. Já no último orçamento também se percebeu isto. E o PS já disse várias vezes que nunca apoiaria uma moção de censura. Está nas mãos do PS.
TEM TECIDO CRÍTICAS AO GOVERNO REGIONAL DA COLIGAÇÃO. NA SUA OPINIÃO, NÃO ESTÁ A FAZER UM BOM TRABALHO?
Não é uma questão de bom ou mau trabalho. Eu acho é que falta trabalho, que é uma coisa ligeiramente diferente. Este Governo começou demasiado a marcar passo.
Temos de ter coragem de cortar com alguns vícios, cortar com algumas coisas que já vinham do passado. Nós não podemos é ter políticas de continuidade. Um partido que tanto criticava o amiguismo e o tráfico de influências, que era o CDS, foi logo o primeiro.
Foram os técnicos especialistas, foram os amigos, foram os parentes. Entrou tudo para o Governo. Assim não chegamos lá.
O QUE É QUE ESTÁ A FALHAR NAS POLÍTICAS DESTE GOVERNO?
Falta ação, falta determinação de fazer coisas que até possam ser desagradáveis. Se forem desagradáveis, nós temos de dar um murro na mesa, porque o dinheiro não estica. E não podemos andar aqui a tentar calar os bairristas e depois queremos agradar a todos. Não podemos. O dinheiro simplesmente não chega a tudo. E neste momento temos uma região à beira da falência porque se tentou agradar a todos.
UMA DAS ÁREAS EM QUE TEM SIDO MAIS CRÍTICO É A DAS FINANÇAS PÚBLICAS. A DÍVIDA CONTINUA A CRESCER, A SATA AINDA NÃO FOI PRIVATIZADA. É UMA SITUAÇÃO QUE O PREOCUPA? O QUE É QUE DEVE SER FEITO DE DIFERENTE?
Eu acho que a SATA é um assunto dramático, a SATA Internacional, entenda-se. A SATA Air Açores precisamos dela e precisamos até de a ampliar. Precisamos, se calhar, de mais um avião ou dois, que permitisse não termos os constrangimentos que sentimos especialmente no verão. Agora, o despesismo e o amiguismo de andar aí a dar dinheiro a toda a gente, ‘a torto e a direito’, especialmente com a SATA, não podemos continuar. Isto vai levar a região à falência.
COMO É QUE SE CONTROLA A DÍVIDA PÚBLICA?
Começando por ou fechar, ou vender a SATA Internacional. Para além disso, nós temos também de ponderar o que temos a nível de administração pública. O que é necessário e o que é desnecessário. Isto é fundamental.
Quando nós temos quase 60% do orçamento da região para pagar ordenados – obviamente que temos médicos e professores e estes são necessários, até nos fazem falta – mas é preciso ir ver se não temos gente a mais nas secretarias que não está lá a fazer nada a não ser ‘enfeitar’. Para enfeitar pomos lá uma jarra.
OS AÇORES TÊM UMA TAXA DE DESEMPREGO DE 5,4%, ABAIXO DA MÉDIA NACIONAL E A SEGUNDA TAXA DE POBREZA MAIS ALTA DO PAÍS (17,3%). AS PESSOAS ESTÃO A TRABALHAR, MAS CONTINUAM A SER POBRES. COMO É QUE SE RESOLVE ESTE PROBLEMA?
Nos últimos 50 anos, o que nós vimos foi a pobreza crescer. Antigamente, um professor não era um pobre, era classe média, até uma classe média alta. Hoje, pergunte a um professor se não se considera um pobre. O que é que é um pobre? É o que nós ganhamos não dar para pagar as contas, ou se dá, não cresce nada. Isso é que é pobreza. Há a pobreza extrema e depois há esses graus de pobreza. Quando nós temos uma classe média empobrecida, nós temos um problema grave. E temos de perceber como é que é possível não haver mão de obra quando temos tanta gente nos cafés, sem fazer nenhum, e a trabalhar clandestinamente.
O mercado clandestino do trabalho é uma coisa que necessita de fiscalização urgente. Mas estas pessoas recebem tudo: casas com rendas de 25 euros que nem sequer pagam. Isto é uma pouca vergonha. Nós não podemos continuar a sustentar isso. Não podemos. Isto está a empobrecer a nossa região. É óbvio que precisávamos de aumentar os ordenados, mas é a tal ‘pescadinha de rabo na boca’. Para aumentar os ordenados, tínhamos de reduzir a carga fiscal. É uma condição, não há outra maneira de fazer isto. Se não, como é que vamos pedir a um empresário que pague mais? Ele diz: está bem, mas eu vou dar ao Estado muito mais em impostos e em Segurança Social. Como é que nós fazemos isto? É tal ‘pescadinha de rabo na boca’.
QUE PAPEL É QUE O CHEGA QUER TER EM 2028? ADMITE UMA COLIGAÇÃO COM O PSD, SE O PSD GANHAR AS ELEIÇÕES?
Não, não há coligações. Enquanto eu for presidente do CHEGA, não há nenhuma coligação. Trabalhamos sozinhos, com as nossas ideias. E, quando muito, vamos vendo, caso a caso, que é o que podemos fazer. Coligações, não há.
UMA POSTURA DIFERENTE DAQUELA QUE FOI ASSUMIDA PELO CHEGA NO PASSADO, AINDA QUE NÃO NA SUA LIDERANÇA.
Nunca foi assumida por mim. Sempre fui contrário a isso e manifestei-me publicamente. Como diz o bom povo, meias é para as pernas. Não há cá meias, não há cá nada. Se quiserem trabalhar connosco, estamos aqui para trabalhar com qualquer partido. Vamos vendo a medida, analisamos, como fazemos na Assembleia Regional.
Negociamos o que temos de negociar. Se não chegarmos a um consenso, a medida não passa. Agora, não vamos estar aqui a entrar num governo e depois somos os patetas alegres. Ficamos com o título de barão, mas não governamos coisíssima nenhuma. Comigo, jamais.
ACHA QUE ESTA EXPERIÊNCIA DE COLIGAÇÃO COM OS TRÊS PARTIDOS QUE FORMAM ATUALMENTE O GOVERNO CORREU MAL?
Isso deve perguntar a José Manuel Bolieiro.
MAS O CHEGA NÃO QUER INTEGRAR UMA SOLUÇÃO SEMELHANTE?
Não, não. Não queremos ter poder com meias partidas e sem dinheiro. Nós estamos a preparar-nos para ser governo, não nos estamos a preparar para ajudar outros a serem governo e sermos a muleta. Não estamos aqui para ser muletas de ninguém.
Já tem feito algumas negociações com o governo para aprovar algumas propostas.
Não só com o Governo, com o PS, com o Bloco. Temos feito, analisamos.
Com o Bloco é mais difícil, porque são obstinados. Agora, ainda há pouco tempo, com o PS, negociámos aquela questão das rotas. Eles aceitaram as nossas sugestões, aprovámos o diploma, maravilha. É bom que percebam uma coisa. Nós não trabalhamos para partidos. Nós trabalhamos para os açorianos. É algo muito diferente na política. Nós não trabalhamos para votos. É o compromisso que temos, é o compromisso que eu assumi e que os meus colegas assumiram e só vão ser deputados os que assumirem este compromisso. Trabalha-se para as pessoas. Trabalhar para o seu bolso ou para os partidos, comigo não contam.
ADMITE QUE OS ELEITORES O POSSAM, DE ALGUMA FORMA, COLAR AO GOVERNO REGIONAL POR APROVAR ALGUMAS DAS SUAS PROPOSTAS?
Se as propostas são boas, quer que eu faça o quê? Que chumbe uma proposta boa? Não é o filho do meu pai que vai fazer isso. Nós sempre fizemos, caso a caso, e, com certeza, se tiverem todos memória, se forem ver o histórico, nós nunca aprovámos absolutamente nada que fosse contrário àquilo que defendíamos. Nunca. Nunca fizemos isso e nunca faremos.
CONTINUA A SER UM PARTIDO DE OPOSIÇÃO?
Somos um partido de oposição. Havemos de ser um partido de governação, mas sempre com as nossas ideias, com o nosso programa eleitoral, nunca fugimos dali. Nunca, jamais.
CONTINUAM A SENTIR O APOIO DAS PESSOAS? AS PESSOAS CONTINUAM A OLHAR O CHEGA COMO UM PARTIDO DE OPOSIÇÃO?
Cada vez mais. As pessoas não estavam acostumadas à minha forma diferente de fazer política, frontal, natural, autêntica. Estão-se a habituar, é natural. Eu sei o que penei em 2020. Hoje, é completamente diferente. As pessoas percebem o que eu digo. Eu não falo por enigmas, eu não falo numa linguagem impercetível e sempre recomendei aos meus colegas que falassem numa linguagem percetível. As pessoas têm o direito de perceber o que nós estamos a dizer. Não vale a pena estarmos aqui com enigmas ou com politiquês.
O CRESCIMENTO DO CHEGA A NÍVEL NACIONAL FOI SUPERIOR ÀQUELE QUE FOI REGISTADO NOS AÇORES? É MAIS DIFÍCIL IMPLANTAR O PARTIDO NAS ILHAS?
Sim, é mais difícil trabalhar nos Açores. Aliás, foi um aviso que André Ventura me deu na altura. Ele disse: “vais ter muito mais dificuldade”. É natural, estamos fragmentados em nove ilhas, umas maiores, outras mais pequenas, numa sociedade bastante conservadora, que tem muito medo da mudança, e que depende muito do Estado, de forma direta e indireta. Eu sabia ao que vinha e sabia em que mar estava a mergulhar.
O QUE FARÁ DE DIFERENTE UM GOVERNO DO CHEGA?
Se calhar, começar a cortar nas gorduras do Estado. Começarmos a ter mais iniciativa privada em muitos serviços do Estado, não termos empresas do Estado que deviam estar nas mãos dos privados, com as devidas regras. Só isto já é um excelente começo.
Começar a baixar a administração pública que nos leva 60% do Orçamento regional. Nós havemos de ter os funcionários públicos necessários. Não podemos ter excedentes, muito menos, caciques políticos e afilhados.
IDENTIFICOU COMO ÁREAS PRIORITÁRIAS OS TRANSPORTES, A SAÚDE, A HABITAÇÃO…
Neste momento, a habitação tornou-se uma prioridade, quando antigamente não era. A habitação é uma emergência neste momento. Como é que é possível um jovem viver em casa dos pais até aos 30 e muitos, quase 40 anos? Como é que é possível? Porque já não há ferramentas. Nós sabemos que a parte bancária mudou muito nos últimos 30 anos. As regras são outras e vão piorar agora, a taxa de esforço vai ser superior. Ninguém consegue comprar uma casa.
Depois foi o ‘boom’ do turismo. Foi uma coisa até positiva, porque se requalificou muita moradia que estava abandonada ou degradada. Converteu-se a maior parte em AL’s e isso gerou economia. Também é mentira o que diz a esquerda. As casas degradadas não serviam a não ser para criar ratos. Para as pessoas não serviam.
Havia uma desvalorização. Neste momento, nós precisamos e temos insistido muito – ainda no último orçamento reforçámos as verbas – na construção com a opção de compra. Não achamos que seja a solução, mas é um começo. A solução é a autoconstrução, que podemos apoiar, e as cooperativas habitacionais. Bastante temos falado nisto.
DE QUE FORMA É QUE SE PODE MELHORAR OS TRANSPORTES NOS AÇORES?
É preciso liberalizar os transportes aéreos. E depois é preciso ter um compromisso sério, sem ter aqui uns ‘padrinhos’ a mandar nisto tudo no transporte marítimo.
Se calhar precisamos do tal cargueiro aéreo, que era uma coisa que muito defendia o CDS. E, de um dia para o outro, vão para o Governo e esquecem-se completamente da promessa.
O QUE PROPÕE O CHEGA PARA MELHORAR O ACESSO À SAÚDE DOS AÇORIANOS?
A primeira coisa é implementar o cheque-saúde, que está há três anos em ‘banho-maria’ no Governo. Tenho informação de que vai ser implementado agora, quero é ver a execução. Nós precisamos de começar a ver a nossa economia com outros olhos. Não podemos olhar para a economia do Pai Estado. Nós temos de começar a trabalhar com os privados. Não vem mal ao mundo. E não sei se não sairá mais barato, porque há demasiado desperdício no Estado, que nós não conhecemos. Só conhecemos os grandes números.
O hospital tal tem uma dívida de 50 milhões. Mas alguém nos mostra onde é que houve o desperdício e os roubos. É uma coisa de que ninguém quer falar, dos roubos que há nos centros de saúde, de equipamentos, de consumíveis… Ninguém quer falar nisto.
FONTE: Diário Insular

