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VIAJAR NA SATA TORNOU-SE UMA LOTARIA

Viajar na SATA Air Açores tornou-se, para muitos açorianos, uma verdadeira lotaria. Não se sabe se o voo sai, quando sai, se chega a horas, se é cancelado, se é alterado ou se o passageiro fica pendurado num aeroporto, à espera de uma explicação que raramente chega com a clareza devida.

E quando falo de lotaria, não falo de um incómodo ligeiro. Nos Açores, um voo inter-ilhas não é apenas uma viagem. É uma ligação essencial. É a ponte que não temos. É a estrada que o mar não deixa construir. É, muitas vezes, o único caminho para uma consulta, um exame, uma cirurgia, uma reunião de trabalho, uma ligação familiar ou uma obrigação profissional.

É por isso que os atrasos e cancelamentos constantes da SATA Air Açores não podem continuar a ser tratados como pequenos incidentes operacionais. Não são. São falhas num serviço público essencial.

Um empresário que perde uma reunião por causa de um voo alterado sofre prejuízo. Um trabalhador que chega tarde perde rendimento, credibilidade ou oportunidade. Um turista que fica retido leva uma péssima imagem da Região. Mas há uma situação ainda mais grave: os doentes que perdem consultas, exames ou tratamentos porque o voo foi cancelado, atrasado ou alterado.

Quem conhece a realidade dos Açores sabe bem que muitas consultas são marcadas com meses de antecedência. Sabe que há pessoas que saem da sua ilha com sacrifício, com ansiedade e, muitas vezes, debilitadas, para conseguir acesso a cuidados de saúde noutra ilha. E depois, por causa de uma alteração no transporte aéreo, perdem a consulta. Isto não é apenas má gestão. É falta de respeito.

E a pergunta é simples: quem responde por isto?

Quem paga a nova deslocação? Quem assume o alojamento? Quem garante uma nova marcação rápida? Quem protege o doente que não teve culpa nenhuma? Ou vamos continuar a fingir que o problema se resolve com um “pedimos desculpa pelo incómodo”?

O incómodo é pouco. O que está em causa é a saúde das pessoas.

A SATA Air Açores tem uma responsabilidade acrescida porque não opera numa realidade qualquer. Opera numa Região arquipelágica, onde a mobilidade inter-ilhas é uma condição básica de igualdade entre açorianos. Um cidadão do Corvo, das Flores, do Pico, de São Jorge, da Graciosa, da Terceira, de Santa Maria, do Faial ou de São Miguel não pode ficar refém da sorte para saber se consegue deslocar-se.

O transporte aéreo regional não pode funcionar como uma raspadinha: umas vezes sai prémio, outras vezes sai azar.

E o mais preocupante é que estamos a aproximar-nos da época alta. Todos sabem que a pressão sobre os voos aumenta. Todos sabem que há mais turistas, mais deslocações, mais carga operacional e mais exigência. Portanto, não há desculpa para impreparação. A época alta não aparece de surpresa no calendário. Não cai do céu como chuva em dia de festa. É previsível. Está marcada. Acontece todos os anos.

Por isso, o Governo Regional tem de dizer claramente se existe, ou não, um plano operacional sério para garantir a regularidade dos voos regionais. Há aviões suficientes? Há tripulações suficientes? Há manutenção planeada? Há capacidade de resposta perante avarias? Há reforço para os períodos de maior procura? Há articulação com o Serviço Regional de Saúde para os doentes deslocados?

Estas perguntas exigem respostas concretas, não conversa de circunstância.

O CHEGA tem alertado para os problemas de planeamento, atrasos, cancelamentos e falta de resposta na mobilidade aérea nos Açores, incluindo os impactos para empresários, turismo e populações das ilhas mais pequenas. Não vale a pena continuar a empurrar o problema com a barriga. O que antes era uma falha ocasional tornou-se rotina. E quando a falha vira rotina, deixa de ser azar e passa a ser responsabilidade política.

A SATA Air Açores não pode continuar a ser gerida como se os açorianos tivessem alternativa. Porque não têm. E quando não há alternativa, a exigência tem de ser maior, não menor.

É preciso criar um mecanismo automático de proteção para os doentes deslocados. Se um doente perde uma consulta, exame ou tratamento por causa de atraso, cancelamento ou alteração de voo, tem de existir uma resposta imediata: remarcação prioritária, apoio logístico e cobertura dos custos adicionais. Sem burocracia absurda. Sem o cidadão andar de balcão em balcão a provar que não teve culpa.

A SATA Air Açores não pode ser apenas tema de discursos bonitos sobre coesão territorial. A coesão prova-se na prática: quando o avião levanta voo a horas, quando o doente chega à consulta, quando o empresário chega à reunião, quando a família consegue regressar a casa e quando as ilhas não ficam isoladas por falta de organização.

Importa também saber quando iremos abrir o mercado regional a outras companhias aéreas que possam aliviar a carga excessiva sobre a SATA Air Açores. Algo que há muito defendo, mas que poucos querem ouvir, e lá saberão o porquê.

Cada rota assumida por outra companhia representa um alívio necessário e urgente para a nossa SATA. Não se trata de destruir a companhia. Trata-se de garantir que os açorianos não ficam reféns de uma única resposta quando essa resposta falha vezes demais.

Nos Açores, a mobilidade não é luxo. É necessidade. É justiça. É autonomia vivida no dia a dia.

Viajar na SATA tornou-se uma lotaria. Mas os açorianos não compraram bilhete para jogar. Compraram bilhete para chegar ao destino.

E isso, numa Região Autónoma que se quer moderna, séria e respeitadora das suas populações, devia ser o mínimo dos mínimos.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

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