Mesmo não sendo economista e com a informação que hoje abunda, fico demasiado preocupado com as contas da nossa Região.
E digo-o de forma direta, como costumo falar: isto não é conversa de técnicos, nem um tema para ficar fechado em gabinetes. Isto diz respeito à vida real dos Açorianos. E aquilo que os números mostram é preocupante, muito mais do que muitos querem admitir.
Durante anos, o Tribunal de Contas tem vindo a avisar. Não foi uma vez, não foi duas. Foram anos seguidos a dizer a mesma coisa: há problemas nas contas, há falta de controlo, há dívida a mais e transparência a menos.
E quando uma entidade destas repete o mesmo alerta durante uma década, há duas hipóteses: ou ninguém ouviu… ou não quiseram ouvir.
Os números mais recentes são claros e ainda mais preocupantes. Em 2025, a administração pública regional apresenta um défice de 299,9 milhões de euros. Não estamos a falar de um desvio pequeno. Estamos a falar de um valor muito significativo, que confirma aquilo que já se vinha a sentir: o desequilíbrio das contas não só continua como está a agravar-se. Isto não é um acidente. É um padrão.
Ao mesmo tempo, a dívida continua em níveis muito elevados, mantendo-se na ordem dos milhares de milhões de euros, com um peso muito significativo na economia regional. E mais grave ainda: continuamos numa trajetória em que o endividamento ultrapassa largamente aquilo que seria desejável para uma Região com a nossa dimensão.
Isto tem de ser dito como é:
Estamos a gastar mais do que aquilo que temos. E estamos a fazê-lo de forma repetida.
Depois há outro problema que me preocupa ainda mais: a falta de clareza nas contas. O próprio Tribunal de Contas continua a emitir reservas. Em linguagem simples: as contas passam… mas não estão bem.
E se nem as contas são totalmente fiáveis, como é que alguém pode garantir aos Açorianos que tudo está sob controlo?
A isto junta-se uma dependência estrutural de transferências externas — do Estado e da União Europeia. Esse apoio é importante, ninguém o nega. Mas não pode ser a base permanente do funcionamento da Região. Porque isso não é sustentabilidade, é dependência.
E depois temos as empresas públicas. Sempre que há prejuízos, quem paga? Somos todos nós. Sempre que há má gestão, a conta acaba na dívida da Região. E a responsabilidade raramente aparece.
O mais frustrante no meio disto tudo é que os problemas não são novos. São conhecidos. Identificados. Repetidos ano após ano pelo Tribunal de Contas: mais rigor, mais controlo, menos dívida, mais transparência.
Mas a pergunta mantém-se: O que mudou realmente? Muito pouco.
E enquanto nada muda, a Região continua a caminhar numa linha perigosa. Pode não cair hoje. Pode não cair amanhã. Mas está cada vez mais perto do limite.
E há uma verdade que não pode continuar a ser ignorada: não há autonomia a sério sem contas certas.
Podemos falar de autonomia política o que quisermos, mas se dependemos sistematicamente de financiamento externo e acumulamos dívida ano após ano, essa autonomia torna-se cada vez mais frágil.
Isto não é alarmismo. É responsabilidade.
Os Açores precisam de mudar de rumo. Precisam de mais verdade nas contas, mais rigor na gestão e mais coragem para tomar decisões difíceis.
Porque continuar assim é fingir que está tudo bem… quando não está.
E a verdade é esta, sem rodeios: os Açores estão a viver no limite.
E quem vive no limite durante muito tempo, mais cedo ou mais tarde paga a fatura.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

