Há uma pergunta que muitos portugueses fazem todos os meses quando olham para a prestação da casa, para a conta do supermercado, para o preço dos combustíveis e para o saldo da conta bancária: afinal, quem manda neste país: o povo ou os banqueiros?
O Banco Central Europeu decidiu subir os juros em nome do combate à inflação. Mas a inflação que esmagou as famílias não nasceu porque o povo português andava a comprar Ferraris, mansões ou iates. Nasceu dos combustíveis, da energia, dos alimentos, da guerra e dos transportes. Não nasceu porque os portugueses estão a viver acima das suas possibilidades.
O português não deixou de andar de carro porque a gasolina subiu. Não deixou de comer porque os alimentos subiram. Não deixou de pagar luz, gás, renda ou prestação da casa porque Bruxelas ou Frankfurt acham que a teoria económica fica bonita nos relatórios.
Na prática, o que aconteceu foi simples: as famílias ficaram mais pobres, as empresas ficaram mais apertadas e os bancos ficaram mais ricos.
Se a Euribor sobe, a prestação da casa sobe quase automaticamente. O trabalhador paga logo. O casal jovem paga logo. O reformado que ajuda os filhos paga logo. O pequeno empresário paga logo. Mas quando chega a hora de pagar os depósitos dos clientes, os bancos arrastam os pés, pagam pouco para apresentarem lucros bilionários.
A história repete-se. Os bancos foram resgatados pelos portugueses, mas não agradecem. Bem pelo contrário: continuam a cobrar comissões abusivas, a condicionar empréstimos à venda de seguros muitas vezes caros e desnecessários, e a subir spreads. Esta banca nacional e europeia representa o pior que o sistema tem: um sistema onde parece que o sol, quando nasce, é só para aquecer alguns.
No tempo da Troika, Fernando Ulrich ficou célebre com a frase: “Ai aguenta, aguenta! Não gostamos, mas Portugal aguenta”. Pois aguentou quem sempre aguenta: o trabalhador, o pensionista, o pequeno empresário, o jovem casal e o contribuinte que sustenta tudo. Não são os banqueiros à Ricardo Salgado que sustentam este país.
Hoje, a lógica é a mesma. Christine Lagarde, presidente do BCE, recebe dezenas de milhares de euros por mês e decide, a partir do conforto da elite europeia, políticas que retiram rendimento a milhões de famílias. É fácil pedir sacrifícios aos outros quando se vive longe da realidade de quem conta moedas ao fim do mês.
Nos Açores, isto é ainda mais grave. Somos uma Região ultraperiférica, dependente dos combustíveis, dos transportes, das importações e do crédito. Quando sobem os juros, quando sobem os combustíveis e quando sobem os preços, os açorianos pagam tudo a dobrar. Pagam mais para viver, mais para produzir, mais para transportar e mais para competir.
O Estado arrecada mais quando sobem os combustíveis. A banca ganha mais quando sobem os juros. Os grandes grupos protegem as suas margens. E o povo? O povo paga.
Já chega.
Chega de tratar o contribuinte como uma caixa multibanco. Chega de pedir sacrifícios sempre aos mesmos. Chega de uma economia onde quem trabalha empobrece e quem vive encostado ao sistema enriquece.
Enquanto a elite europeia cria políticas que espremem as famílias, os políticos eleitos deviam estar ao lado dos trabalhadores, dos pequenos empresários, dos agricultores, dos reformados e de todos aqueles que produzem, pagam impostos e sustentam uma máquina de burocratas, privilegiados e instalados.
Porque Portugal não aguenta tudo. E os portugueses estão a chegar aos limites da sua paciência.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

