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ZEQUINHA E A BELEZA DE MATAR ESQUERDALHA

Calma. Ninguém vai matar ninguém, pelo menos que se saiba.

O título é provocatório de propósito. Surge depois de ver anunciada a peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, integrada na programação da Ponta Delgada 2026 (PDL26). E fiquei a pensar: e se o título fosse “Zequinha e a Beleza de Matar Esquerdalha”?

Imaginem o escândalo. Seriam quilómetros de críticas, indignação em horário nobre, debates inflamados, editoriais moralistas e a habitual masturbação intelectual coletiva. Seríamos acusados de incitamento ao ódio, extremismo, atentado à democracia e tudo o que viesse à mão.

Mas como o título nasce no meio cultural dominante, alinhado com a esquerda que se autointitula esclarecida e progressista, já é arte. Já é reflexão. Já é provocação inteligente. Já é liberdade criativa.

Dois pesos, duas medidas. Sempre os mesmos.

E o problema não é apenas estético ou ideológico. O problema é financeiro. Estamos a falar de milhões de euros do bolso dos contribuintes açorianos canalizados para um projeto que, goste-se ou não, está profundamente marcado por uma visão cultural e política muito específica. Só no PDL26 falamos de cerca de 5,3 milhões de euros de investimento público, a que se somam centenas de milhares de euros de entidades privadas.

Enquanto isso, há escolas com infiltrações, equipamentos degradados e necessidades básicas por resolver. O lugar onde as nossas crianças deviam aprender, crescer e preparar o futuro continua a ter problemas estruturais. E nós a financiar debates existenciais sobre quem deve “matar” quem, ainda que metaforicamente.

Vão dizer que é arte. Que é metáfora. Que é uma crítica histórica. Muito bem. Então façamos o teste da coerência: aceitam o mesmo grau de tolerância quando a provocação vem do outro lado? Ou a liberdade artística só é sagrada quando confirma a narrativa dominante?

Quem ousar questionar este modelo é logo apelidado de inculto, ignorante ou populista. Já estou à espera das pedras na praça pública. Talvez compre mesmo um capacete.

A verdade é simples: cultura não pode ser sinónimo de militância paga com dinheiro público. Cultura deve unir, elevar, desafiar intelectualmente, não servir de trincheira ideológica financiada pelos impostos de todos.

Assim vai a nossa terra: alguns de papo inchado, outros de algibeiras cheias, e os restantes a pagar a conta enquanto ouvem dizer que tudo isto é para o seu bem.

Haja saúde, porque lucidez começa a ser artigo raro.

José Pacheco
Vereador do CHEGA na Câmara Municipal de Ponta Delgada
(muito triste pela forma como se trata a cultura na nossa terra)

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