Houve um tempo em que a economia da ilha de São Jorge funcionava a outra escala. Produzia-se menos queijo, mas esse produto sustentava a vida de muitas famílias, ajudava a manter as explorações agrícolas e alimentava uma economia local em que o valor circulava mais vezes dentro da própria ilha.
O queijo não era apenas um produto comercial. Era o resultado de uma forma de vida, de uma relação próxima entre a terra, os animais, os produtores e os consumidores. À volta da produção de leite e do fabrico do queijo existia uma rede de dependências e de complementaridades que permitia distribuir rendimento por muitas famílias. Havia menos dependência de determinados produtos da grande indústria e maior aproveitamento dos recursos locais. Era, à sua maneira, uma economia mais circular, assente no trabalho, na produção e na circulação de riqueza dentro da comunidade.
Até nas relações entre proprietários e agricultores se encontravam práticas que revelavam essa ligação à produção. Em determinadas situações, as rendas das terras eram pagas no final do ano agrícola através de litros de leite, onde recebiam o valor corresponde ao preço do leite pago nesse ano agrícola, uma forma de remuneração associada à produção anual. O senhorio recebia a parte acordada, enquanto o agricultor mantinha a exploração e a capacidade de continuar a produzir. Era uma relação que, com todas as limitações próprias da época, ligava diretamente o rendimento da terra à riqueza que dela resultava.
Hoje, a realidade é diferente. Os custos de produção aumentaram, as exigências são maiores, os mercados são mais competitivos e a dependência de bens e serviços vindos do exterior pesa cada vez mais na atividade agrícola. Mas há uma questão que merece ser colocada com frontalidade: estamos a produzir queijo de São Jorge em função de uma estratégia de mercado ou continuamos demasiado concentrados em produzir, esperando que o mercado absorva tudo aquilo que colocamos à venda?
Produzir é essencial, mas produzir sem uma estratégia clara de comercialização pode transformar uma vantagem numa fragilidade. Quando a oferta cresce sem que exista procura suficiente, quando os canais de venda não acompanham o ritmo da produção e quando o produto não é valorizado de acordo com a sua qualidade e identidade, o resultado pode ser uma pressão crescente sobre os preços e sobre os rendimentos de quem trabalha.
O queijo de São Jorge tem características que o distinguem. Tem história, autenticidade, tradição e uma identidade territorial reconhecida. Não deve competir apenas pela quantidade nem ser tratado como mais uma mercadoria indiferenciada. A sua valorização exige uma política comercial consistente, conhecimento dos mercados, identificação dos consumidores que estão dispostos a pagar pela qualidade e uma aposta contínua na diferenciação do produto.
Não se trata simplesmente de produzir menos. Trata-se de produzir com equilíbrio, vender melhor e criar mais valor por cada unidade produzida. Isso implica conhecer a procura, antecipar tendências, diversificar mercados, consolidar canais de distribuição e comunicar melhor aquilo que torna o queijo de São Jorge único. Implica também avaliar os custos reais da produção e garantir que o preço de venda permite remunerar dignamente os produtores, sem esquecer os restantes intervenientes da cadeia.
A estratégia não pode começar apenas quando surgem os excedentes, quando os preços caem ou quando os produtores sentem dificuldades em escoar a produção. É precisamente nas alturas de estabilidade que se deve fazer o trabalho de casa: estudar mercados, procurar novos clientes, desenvolver marcas, planear campanhas de marketing, negociar com a distribuição e preparar alternativas para diferentes cenários económicos.
A prospeção de mercado não se improvisa numa situação de emergência. A construção de uma marca sólida não se faz de um dia para o outro. E a conquista de novos consumidores exige continuidade, investimento e conhecimento. Quando a crise chega, muitas dessas oportunidades já deveriam estar a ser trabalhadas há anos.
Também importa recuperar uma dimensão que, por vezes, fica esquecida: a economia local. Valorizar o queijo de São Jorge deve significar, sempre que possível, reforçar a ligação entre a produção, os serviços, o comércio e o rendimento das famílias da ilha. Quanto maior for a capacidade de manter a riqueza a circular localmente, maior será a resiliência da economia jorgense perante as dificuldades externas.
O passado não deve ser idealizado. As condições de trabalho eram duras, os rendimentos nem sempre eram suficientes e as relações económicas tinham desigualdades que hoje não devemos ignorar. Mas há ensinamentos que continuam atuais: a importância de aproveitar os recursos próprios, de manter uma relação equilibrada entre produção e rendimento e de não perder de vista as pessoas que estão na base de toda a cadeia de valor.
O futuro do queijo de São Jorge não depende apenas de produzir mais leite ou fabricar mais queijo. Depende também da capacidade de antecipar, planear, valorizar e vender. Depende de uma estratégia que una produtores, indústria, distribuição e entidades públicas em torno de objetivos claros e de uma visão de longo prazo.
Porque uma economia agrícola sustentável não se mede apenas pelo volume que produz. Mede-se também pela capacidade de gerar rendimento, garantir continuidade às explorações, fixar população e transformar os recursos da terra em prosperidade para quem nela vive e trabalha.
Não podemos esperar pela próxima crise para começar a pensar no mercado. A valorização do queijo de São Jorge tem de ser construída todos os dias, muito antes de o excesso de produção se transformar num problema.
Produzir é indispensável. Mas, para garantir o futuro, é preciso saber o que produzir, para quem produzir, quanto produzir e, sobretudo, como valorizar aquilo que tão bem sabemos fazer.
José Brasil
Dirigente Regional do CHEGA Açores em São Jorge

