Quando algum partido ou deputado defende uma determinada ilha porque se trata de uma proposta justa ou de um problema específico, ninguém critica. Mas quando se defende uma medida específica para uma determinada ilha à custa das outras, o assunto ganha outra dimensão.
A medida discutida na última sessão da Assembleia Legislativa Regional, apresentada pela coligação, sob a batuta do CDS, para atribuir direitos de vacas aleitantes aos agricultores de São Jorge, com o objetivo de mitigar o alegado excesso de produção e os stocks de queijo nas cooperativas, é uma daquelas medidas que, como dizia Herman José, não havia necessidade.
Estas duas iniciativas são absolutamente inúteis. O Governo Regional não dispõe dos mecanismos legais necessários para as concretiza. Mas ficou claro que a coligação está refém de medidas populistas de um partido que agora entende que a política pode ser feita para satisfazer clientelas partidárias, neste caso o eleitorado do CDS de São Jorge. Perante propostas populistas, o PSD, para não ficar para trás, seguiu o parceiro de coligação e apresentou também uma recomendação para promover o Queijo de São Jorge.
Sobre recomendações para a crise dos lacticínios nos Açores, sobre medidas para apoiar os restantes queijos das outras ilhas, nada, nem uma palavra. As duas propostas foram apresentadas como uma «armadilha», para que quem ousasse contrariá-las fosse acusado de estar contra São Jorge, e por isso mesmo quase todos os partidos ficaram aprisionados nesta teia muito bem urdida pela coligação.
O Secretário da Agricultura tentou justificar que o que estava escrito nas propostas não era, afinal, aquilo que se pretendia dizer. Basicamente, toda a gente percebeu que aquilo não era para ser levado a sério e que as duas propostas surgiram num contexto de disputa eleitoral dentro dos partidos da coligação.
O CDS, ao apresentar uma medida populista e demagógica, sem efeitos práticos e de execução duvidosa, foi secundado pelo PSD, que apresentou uma proposta genérica para se fazer aquilo que, nas palavras do próprio Secretário da Agricultura, já está a ser feito.
Quem acompanhou o debate ficou indignado por estas medidas discricionárias terem sido aprovadas. Por isso, quero dizer com toda a clareza, para que os açorianos das restantes ilhas fiquem descansados: as duas recomendações aprovadas não resolvem o problema e, mesmo que fossem executadas, não resolveriam a crise do Queijo de São Jorge nem a crise do setor leiteiro, a começar pela quebra do preço do leite na ilha Terceira.
Apesar de estarmos no meio de uma grave crise, com implicações no consumo, não podemos ignorar que parte dela resulta da ausência de uma estratégia concertada de promoção dos produtos açorianos. Não basta pôr vacas de esferovite a pastar na Praça de Espanha ou andar a fazer feiras aqui e acolá. É preciso muito mais. É preciso valorizar a Marca Açores, é preciso profissionalizar a gestão, é preciso chegar a novos mercados e é preciso também dar o exemplo cá dentro.
A hotelaria e a restauração têm a responsabilidade e o dever quase moral de promover e consumir os produtos regionais, e não é isso que vemos em muitos hotéis e restaurantes, onde nem a manteiga é regional e os queijos servidos ao pequeno-almoço nem sequer são identificados. É um amadorismo digno de registo, com a conivência do Governo Regional, que nada faz para inverter a situação.
Mas não havia necessidade de que a estratégia política de um partido passasse por alimentar o bairrismo entre os açorianos.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

