Os terceirenses esperavam que a ciência estivesse ao serviço das pessoas, da saúde pública e da economia. Não que servisse de instrumento para aproveitamento político, para a “política de terra queimada”, para lançar suspeições graves e infundadas sobre uma ilha que enfrenta hoje enormes desafios.
A polémica tese que analisa a concentração de metais pesados em ossos de habitantes da Praia da Vitória — com base em 97 amostras ósseas —, comparando-os com ossadas de residentes de Angra do Heroísmo, e a tentativa política e mediática de provar novos riscos para a saúde pública é um daqueles casos de suicídio económico e político coletivo que deve ser estudado numa nova tese de doutoramento.
O CDS promoveu um debate de urgência sobre a contaminação dos solos e aquíferos da Praia da Vitória, na sequência de uma tese de doutoramento cujo investigador é filho de um dirigente do partido, ganha contornos ainda mais graves quando o próprio irmão do doutorando confessa publicamente, em artigo de opinião neste jornal, que houve interferência do vice-presidente do Governo Regional — o ainda vice-presidente Artur Lima — no financiamento público da tese. Não são suspeitas do CHEGA: são palavras da própria família.
Se o vice-presidente do Governo Regional se empenhou pessoalmente na escolha de uma tese de doutoramento financiada com dinheiro dos contribuintes açorianos, quando o investigador doutorando é filho de uma figura do seu partido (António Félix Rodrigues), que tem um cargo de nomeação numa empresa pública (EDA), esta é uma situação que exige respostas claras: a escolha do financiamento de teses é por mérito ou compadrio?
Foi um espetáculo degradante ver a Ilha Terceira arrastada para a lama por aqueles que a deveriam defender. A tentativa de atribuir a governação do passado e a autarcas a responsabilidade pela contaminação foi patética. No meio de toda aquela palhaçada, os verdadeiros culpados pela contaminação da Ilha Terceira ficaram esquecidos: os americanos, que contaminaram, e o Governo da República, que lava as mãos como Pilatos
Num momento em que o turismo e a economia da Terceira atravessam uma situação muito desafiante, trazer o tema da contaminação ambiental ao plenário sem factos relevantes, sem soluções concretas e sem apresentar uma única medida estruturante foi um dos maiores atos de irresponsabilidade política dos últimos 50 anos da autonomia.
Politicamente falando, a desculpa de atribuir sempre ao passado a culpa pelos maus resultados da governação já é “chão que deu uvas”. Passados quase seis anos deste governo da coligação, é tempo de fazerem contas, de assumir responsabilidades — já não é tempo de mais desculpas.
Ninguém pode impedir que cientistas estudem o que entenderem, nem que os jornalistas publiquem notícias sensacionalistas. Mas a quem tem responsabilidades governativas exige-se mais prudência e mais responsabilidade — foi isso que aconselhou o ministro da Defesa e líder do CDS nacional.
Politizar a ciência e arrastar a reputação de uma ilha inteira para a lama por vaidade, assumir que há compadrio na seleção de teses de doutoramento, é algo absolutamente reprovável.
Foi triste assistir ao espetáculo deprimente de ver os deputados do PSD baterem palmas, a semana passada, no parlamento, durante o debate promovido pelo CDS sobre a contaminação da Terceira. Mais parecia aquela cena do filme “Titanic”: a filarmónica a tocar e o barco a afundar-se.
Em política não deveria valer tudo.
Francisco Lima
Deputado do CHEGA Açores

