InícioOpiniãoHOSPITAL UNIVERSITÁRIO: A AMBIÇÃO QUE ASSUSTA OS CONFORMADOS

HOSPITAL UNIVERSITÁRIO: A AMBIÇÃO QUE ASSUSTA OS CONFORMADOS

O debate em torno da criação de um hospital universitário nos Açores voltou a expor uma velha fragilidade da nossa vida pública: há sempre quem reaja com travão sempre que se fala de um projeto com ambição, escala e visão estratégica.

Em vez de discutir seriamente o que esta solução pode representar para a Região, prefere-se insistir nos argumentos do costume: que não há dimensão, que não é prioridade, que é cedo demais, que é um passo maior do que a perna. Ora, é precisamente essa mentalidade que tem atrasado tantas decisões estruturais nos Açores.

Eu penso o contrário. Defendo um hospital universitário porque acredito que os Açores não podem continuar condenados a gerir limitações quando deviam estar a construir capacidade.

Quem é contra esta ideia costuma apresentar-se como prudente. Mas, muitas vezes, o que está em causa não é prudência. É falta de visão. Porque um hospital universitário não é um luxo, nem uma vaidade institucional, nem uma operação de cosmética política. É uma ferramenta séria para reforçar a qualidade dos cuidados de saúde, melhorar a formação, estimular a investigação, atrair talento e criar condições para fixar profissionais qualificados na Região.

Numa terra onde se fala tantas vezes da dificuldade em reter médicos e outros profissionais de saúde, seria contraditório rejeitar uma solução que pode precisamente ajudar a combater esse problema. Quem diz que não há escala esquece-se de que a escala não aparece por milagre. Constrói-se. Constrói-se com investimento, com ligação à universidade, com diferenciação clínica, com massa crítica e com capacidade de gerar conhecimento. Se ficarmos à espera de um cenário perfeito para agir, então não sairemos nunca do mesmo ponto.

Também não aceito o argumento de que esta não é uma prioridade. Como é que não pode ser prioritário um projeto que reforça o sistema de saúde, valoriza a formação médica, estimula a investigação e torna a Região mais atrativa para os profissionais que queremos fixar? Os Açores precisam de muito mais do que respostas avulsas e remendos sucessivos. Precisam de estruturas que consolidem o presente e preparem o futuro.

Outro argumento recorrente é o do custo. É legítimo discutir custos. O que já não é sério é falar apenas do custo de fazer e nunca do custo de não fazer. A dependência custa. A escassez custa. A rotatividade de profissionais custa. A incapacidade de criar massa crítica custa. O atraso paga-se todos os dias, mesmo quando não vem devidamente identificado numa rubrica orçamental.

São Miguel surge naturalmente no centro desta equação. Não por privilégio, mas por realidade. Tem escala, população, infraestruturas e proximidade à Universidade dos Açores que a colocam numa posição central para acolher um projeto desta natureza. Reconhecer este facto não deve ser motivo de crispação, mas sim de maturidade política.

E há um ponto que importa deixar muito claro: o argumento contra um hospital universitário não pode nascer do simples incómodo de essa estrutura ficar localizada na maior ilha e não noutra. Esse não é um critério sério, nem técnico, nem estratégico. Decisões desta dimensão têm de ser tomadas com base na capacidade instalada, na resposta que podem dar e no benefício regional que podem gerar, não em ressentimentos geográficos ou em desconfortos territoriais.

O importante não é transformar esta discussão numa competição entre ilhas. O importante é perceber que uma estrutura desta dimensão deve ser pensada ao serviço de toda a Região. Um hospital universitário não serve apenas o lugar onde está sediado. Serve os Açores se aumentar a capacidade clínica, melhorar a formação, reforçar a investigação e elevar a qualidade da resposta em saúde.

No fundo, a escolha é simples. Podemos continuar a defender o modelo que já mostrou as suas limitações, ou podemos finalmente ter a coragem de apostar numa solução mais robusta, mais moderna e mais útil para o futuro da Região.

Os Açores precisam de deixar de ter medo da ambição. Precisam de parar de confundir prudência com imobilismo. Precisam de perceber que há momentos em que não basta gerir o que existe, é preciso criar o que falta.

E o que falta, demasiadas vezes, não é possibilidade. É decisão.

Se os Açores querem crescer em qualidade, em conhecimento e em capacidade, então têm de começar a agir como uma Região que acredita em si própria. O futuro não se protege travando tudo o que é transformador. O futuro constrói-se com visão, coragem e vontade política. É por isso que defendo um hospital universitário. Porque os Açores não ganham nada em pensar pequeno.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

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