Há novelas mexicanas de mau gosto que poderiam ser mais engraçadas do que o atual contexto da (des)governação dos Açores. Não creio que em mais algum país democrático haja um governo de coligação em que o vice-presidente desse mesmo governo assume publicamente que está disponível, nas próximas eleições, para se coligar com os adversários. Deve ser caso único.
Já não chegavam as reuniões com empresários a falar mal do próprio governo, a humilhação pública de Berta Cabral e agora a de Duarte Freitas — com quem o vice-presidente do governo disse numa entrevista/conversa de café que jamais fará parte com ele num futuro executivo — que é o culminar de uma hipocrisia política e de uma falsidade já denunciadas de forma muito clara por Clélio Meneses, ex-secretário deste governo, que deixou de suportar esta forma de fazer política.
Francisco César deveria estar a esfregar as mãos de contente — só que talvez não. Um político catavento, que hoje apoia quem ontem atacou, não conquista deputados nem eleitores. E se Francisco César for devidamente aconselhado pelo seu pai, o grande Carlos César, saberá que este apoio do CDS é um presente envenenado. O eleitorado do PS — e não só — já tem maturidade para perceber que na política não pode valer tudo e não valoriza esta espécie de “mercantilismo político”.
Com esta crise artificial, durante 19 dias a governação de Bolieiro ficou paralisada, sem que fossem tomadas medidas para combater o preço dos combustíveis. Mesmo para fazer face à catástrofe no turismo, foram os partidos da oposição — com o apoio do CHEGA — a ter de aprovar medidas de promoção de rotas. Não deve ser fácil manter a cabeça fria com um elefante no Conselho de Governo.
Ninguém percebe a razão pela qual Bolieiro não desfaz a coligação — ou pelo menos se livra daqueles que já assumiram publicamente que não gostam do PSD — colocando nas mãos do parlamento a decisão sobre a continuidade deste governo através de uma moção de confiança.
De uma crise artificial, decretada por Bolieiro, rapidamente se passou a um “Furacão” político com o vice-presidente a fazer o papel do bombeiro incendiário anunciando um eventual resgate financeiro. A meio de duas guerras, com o custo de vida a disparar e o preço dos combustíveis a bater recordes, os juros a subir, o PRR em perigo, a privatização da SATA por resolver, o Hospital do Divino Espírito Santo sem solução e uma dívida pública galopante, é mau demais o que está a acontecer.
O CHEGA chegou a ser apelidado de partido instável? Agora vê-se afinal quem promove a instabilidade. O CHEGA, com cinco deputados, nunca reclamou ir para o governo, nunca exigiu cargos nem “tachos” na EDA ou na Lotaçor. Nunca mandou renovar palácios com passadeiras vermelhas, nem reclamou privilégios no acesso aos aviões. O que o CHEGA tem reclamado é da incompetência e da falta de coragem política deste governo.
A conclusão a que se chega é que esta casta de políticos que nos governa há décadas — gente que sempre fez da política um modo de vida — vive num mundo paralelo, completamente fora da realidade. Não compreende o que é passar o mês a contar os tostões, ter de optar entre os medicamentos e os alimentos, gerir a vida com dificuldades. Ou ter de pagar salários, lidar com um sistema de saúde e trabalho que penaliza quem produz e protege quem não cumpre, ou morrer à espera de uma consulta. Querem salvar-se politicamente, mesmo que enterrem os açorianos.
É tempo de dizer: acabem com esta palhaçada.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

