InícioNotíciasLEITE: QUANDO O PREÇO MANDA E A ESTRATÉGIA FALTA!

LEITE: QUANDO O PREÇO MANDA E A ESTRATÉGIA FALTA!

Um grave problema do país é não pensar a longo prazo, não ter estratégia, não ter coragem de decidir quais os setores onde somos competitivos e devemos investir, e quais devemos manter ou reduzir. Falta distinguir entre modas e nichos de mercado e a verdadeira economia de escala.
Todos se recordam de Portugal, na década de 90, ter arrancado vinhas e parado a produção para receber subsídios, enquanto os espanhóis investiam e conquistavam mercados.
Não é por alguém criar caracóis, chamar as televisões e o secretário ir cortar a fita que a solução para a maioria dos agricultores passa a ser produzir caracóis. A política agrícola não pode ser feita de modas.
No setor do leite, as contradições são claras. Por um lado, continuam a abrir candidaturas e incentivos para as fábricas de lacticínios. Ao mesmo tempo, criam-se incentivos para reconverter explorações para carne, sem avaliar o impacto destas decisões em toda a fileira. Qualquer dia vamos ter fábricas, mas não teremos leite.
Em muitas ilhas a diminuição da oferta de leite não se traduziu no aumento do preço, até porque a diminuição da produção aumenta os custos unitários de produção. E onde existem monopólios ou oligopólios e falta de concorrência não se aplica a lei da oferta e da procura da matéria-prima (leite).
Se a lógica da reconversão de leite para carne tivesse sido aplicada de forma cega em São Jorge, hoje o queijo de São Jorge estaria em risco. Nesse caso, a indústria aumentou o preço pago ao produtor e manteve a atividade, provando que havia alternativas.
Apesar de a carne estar atualmente com preços altos, o acordo com o Mercosul pode vir a ter impactos negativos no futuro. Tomar decisões que comprometam a fileira do leite em algumas ilhas apenas porque o preço da carne está em alta pode ser precipitado.
Uma coisa é reconverter explorações que deixaram de ser viáveis, por falta de dimensão, de mão-de-obra ou de sucessão. Outra, bem diferente, é seguir o preço alto da carne, que amanhã pode cair.
A indústria tem culpas no cartório. Muitas fábricas estão obsoletas e apostam em produtos de baixo valor acrescentado com base em matéria-prima barata. A situação de monopólio em algumas ilhas não incentiva a concorrência nem a inovação. É uma verdade de “La Pallise”: onde há concorrência, pagam-se melhores preços ao produtor.
Além disso, por erros de gestão no passado, parte da indústria está nas mãos de interesses externos, alguns com comportamentos predatórios que estão a destruir o próprio setor, aquilo que na natureza é conhecido por “Hiper parasitismo” em que o “parasita” acaba por matar o hospedeiro, neste caso o lavrador.
Nos Açores os decisores políticos navegam à vista, tapando buracos aqui e ali (menos os dos caminhos agrícolas), prometendo tudo a todos e deixando um rasto de dívidas por pagar ao setor. Não se trabalha para as próximas gerações, mas para as próximas eleições. Repetem-se chavões, palavras vazias aqui e acolá. Não se reforma nada e continua-se a promover a subsidiodependência – porque dá votos e mantém as dependências.
A agricultura precisa de uma estratégia de médio e longo prazo, baseada no mercado e nos desafios futuros, e não em modas ou eleitoralismo. Não podemos continuar a “navegar à bolina”, a meter a cabeça na areia sem enfrentar os problemas.
Como diz o provérbio, quem não sabe para onde vai, qualquer direção serve. Mas a agricultura dos Açores é demasiado importante para ser gerida ao “sabor do vento”.

Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

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