Num país onde o empresário é olhado com desconfiança, onde a inveja e a mesquinhez florescem como ervas daninhas, esta classe que cria emprego, que arrisca o seu património e que, segundo as estatísticas, fracassa com elevada probabilidade (menos de metade das empresas criadas sobrevive aos primeiros três anos e mais de um terço das que existem dá prejuízo), sujeita-se, nos Açores, a desafios inimagináveis.
Desde uma simples autorização ao calvário de pedir uma licença de construção ou de esperar meses por um registo comercial, os empresários vivem num sobressalto permanente. Esta máquina burocrática infernal que é o Estado está formatada para perseguir, protelar, procrastinar e dizer não, e nunca para apoiar quem trabalha, quem arrisca, quem investe. É ultrajante, uma vergonha, o “ecossistema” empresarial nos Açores.
A maioria das empresas em Portugal mantém a porta aberta por sacrifício e “carolice”, e não pela rentabilidade do seu capital. Com a economia financeira a valer várias vezes a economia real, muitos empresários obteriam mais rendimento se se dedicassem à compra e venda de imobiliário ou ao investimento em obrigações do Tesouro americano, que rendem hoje mais de 5% ao ano, muito acima da rentabilidade do capital investido em qualquer negócio – é só fazer as contas.
Nos Açores, os “custos de contexto” agravam a situação, a começar pelos transportes marítimos, com preços exorbitantes, e pelos aéreos, caros e ineficientes, passando pela desgraça da falta de mão de obra qualificada, pelo mau funcionamento da administração regional, que leva séculos a despachar um simples papel, e pelas autarquias, que mais parecem agências de entretenimento. São só dificuldades, tudo a puxar o empresário para baixo.
Está na moda o Governo e as autarquias promoverem cursos de empreendedorismo, mas, pelo andamento das coisas, seria mais adequado promover sessões de psicologia clínica, tendo em conta que quem é empresário nos Açores se arrisca a engrossar as estatísticas das doenças do foro psiquiátrico ou dos ex-empresários falidos – um estigma social que dura para o resto da vida, numa terra em que falhar só é admissível às empresas públicas.
A maioria dos empresários vivem desanimados. Com o aumento do custo de vida, a falta de clientes e uma burocracia atroz de um Estado que os espreme até ao tutano – desde os impostos até às paragens diárias pela GNR à caça da coima –, o dia a dia dos empresários é uma espécie de inferno de Dante, que piora de dia para dia numa Europa que se entretém a produzir regulamentos e burocracia.
Com a economia das ilhas a várias velocidades e a maioria a caminho do empobrecimento, o empresário vê-se esmagado pelo rolo compressor dos grandes monopólios e oligopólios instalados. Do agroalimentar à construção civil, passando pelos transportes, pela energia e pelo turismo, o sol, quando nasce nos Açores, é só para alguns. Só os grandes “players” prosperam nos Açores. Resta a agricultura, onde ser empresário agrícola é uma espécie de escravatura moderna: sem horário, sem rendimento garantido, sem férias e sem esperança.
O empresário do turismo vê a vida andar para trás, ou melhor, vê os clientes a voar para outras paragens, refém de duas companhias públicas falidas e parasitárias (TAP e SATA) ou, nas palavras de Bolieiro, “com falta de ética” – algo caricato para quem é, na prática, o dono da SATA.
Por isso, ser empresário nos Açores é tanto um ato de coragem como de loucura.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

