Há números que já não podem ser tratados como simples estatísticas. Quando uma família trabalha, paga impostos e, ainda assim, vê grande parte do seu rendimento desaparecer para conseguir manter um teto, estamos perante mais do que uma crise da habitação. Estamos perante uma crise social, geracional e uma falha política.
Os dados mais recentes são inquietantes. A taxa de esforço calculada para o arrendamento atingiu 82% e, na compra, 72%. Em Ponta Delgada, são 58% para comprar e 57% para arrendar. Valores muito distantes dos 33% habitualmente considerados como referência de equilíbrio financeiro.
Entretanto, os salários sobem, mas não conseguem acompanhar esta realidade. Segundo o INE, no segundo trimestre de 2026, a remuneração bruta mensal média aumentou apenas 1,8%, descontada a inflação.
Nos Açores conhecemos bem esta pressão. Em junho, o valor mediano da avaliação bancária da habitação na Região já atingia 1.697 euros por metro quadrado.
O salário sobe. A casa foge.
E é sobretudo uma geração inteira que está a pagar a factura. Jovens estudam e já não conseguem sair de casa dos pais. Adiam a independência, adiam os filhos. Outros fazem aquilo que Portugal conhece demasiado bem: partem.
Como chegámos aqui?
Não foi por acaso, nem aconteceu de um dia para o outro. É o resultado acumulado de sucessivas políticas de habitação sem visão estratégica, de burocracia que dificulta construir, de impostos e custos que oneram quem compra e de uma oferta que não respondeu às necessidades das famílias.
Importa também recordar escolhas políticas do passado. Em 2012, durante o Governo PSD/CDS, Portugal criou os chamados vistos gold, associando, entre outras possibilidades, autorizações de residência a investimentos imobiliários de pelo menos 500 mil euros. A necessidade de atrair investimento num país então em crise não pode ser ignorada. Mas também não podemos ignorar uma política que reforçou a habitação enquanto ativo de investimento internacional, num mercado cuja capacidade de resposta às necessidades de quem cá vivia já era limitada.
Depois vieram outros Governos, outras promessas e sucessivos “pacotes” para a habitação. O problema ficou. E agravou-se.
Não sou contra o investimento estrangeiro. Portugal precisa de investimento que crie riqueza, empresas, emprego e melhores salários. Mas existe uma diferença entre atrair capital produtivo e permitir que o acesso à habitação dos portugueses seja progressivamente condicionado por preços que os seus rendimentos não conseguem acompanhar.
Uma casa é uma necessidade básica e condição essencial da autonomia humana, mas é o reflexo de uma sociedade verdadeiramente desenvolvida.
Quando quem trabalha não consegue pagar uma habitação, quando um jovem tem de escolher entre permanecer indefinidamente em casa dos pais ou abandonar a sua terra e quando constituir família depende de suportar preços incompatíveis com os salários portugueses, alguma coisa falhou profundamente.
Falhou a prioridade. Falhou a estratégia. Falhou a liderança.
Uma região como os Açores não pode assistir passivamente à perda dos seus jovens e esperar que a demografia, a economia e a sustentabilidade das nossas ilhas não sofram as consequências.
Temos um Estado que pode pedir tudo, mas oferece um país onde ter casa, constituir família e construir futuro se transforma num privilégio.
Se o salário sobe, mas a casa foge cada vez mais depressa, há uma pergunta à qual o poder político já não pode continuar a fugir: Portugal para quem?
Ana Martins
Deputada do CHEGA Açores à Assembleia da República

