Visitar uma exploração agrícola e ouvir quem todos os dias trabalha a terra é muito diferente de falar da lavoura a partir de um gabinete. Na Povoação, numa conversa com o produtor Ricardo Sousa, encontramos o retrato de um setor que continua a resistir, mas que está cada vez mais pressionado pelo aumento dos custos, pela redução do preço do leite e pela incerteza quanto ao futuro.
Os números ajudam a perceber o problema. Ricardo Sousa deu um exemplo simples: uma diferença de apenas um cêntimo e meio no preço do leite pode representar cerca de 1.500 euros por mês numa exploração como a sua. É praticamente um salário que desaparece todos os meses das contas de uma empresa agrícola.
E enquanto o rendimento aperta, as despesas não param.
Gasóleo, adubos, sementes, alimentação animal, serviços, equipamentos e tratamentos fitossanitários pesam cada vez mais nas contas. Agora, até uma praga de lagarta no milho obriga a novos tratamentos e a mais dinheiro gasto. Na conversa, o agricultor recorda que houve um período em que as contas conseguiram algum equilíbrio, mas durou pouco: entretanto, o preço do leite voltou a descer.
É precisamente aqui que está uma das maiores injustiças sentidas pelos produtores: quando os mercados europeus descem, essa descida rapidamente chega aos Açores; quando sobem, a recuperação nem sempre chega da mesma forma ao produtor. É esta a realidade descrita por quem vive diariamente da produção de leite.
Durante demasiado tempo criou-se também a ideia de que apoiar a agricultura significa simplesmente distribuir subsídios. É uma visão errada.
Um agricultor é um empresário. Investe, emprega, assume riscos, compra máquinas, paga serviços, enfrenta tempestades, pragas e oscilações dos mercados. Como qualquer outra atividade económica, a agricultura precisa de gerar rendimento e permitir uma vida digna a quem trabalha. Ninguém abre um café, uma oficina ou uma empresa para trabalhar sem margem. Não podemos exigir isso precisamente a quem produz os nossos alimentos.
Mas há um sinal ainda mais preocupante: quando perguntámos a Ricardo se aconselharia um jovem a entrar hoje na lavoura, a resposta foi imediata: “Não.”
Esse talvez seja o maior alerta de todos.
Quando uma profissão deixa de ser atrativa para os jovens, começamos a discutir não apenas os problemas do presente, mas a própria sobrevivência futura do setor. Sem renovação geracional, haverá cada vez menos produtores, mais explorações abandonadas e maior dependência alimentar do exterior.
E há outra realidade que frequentemente esquecemos: a agricultura açoriana não produz apenas leite e carne. Produz paisagem.
As pastagens verdes, as vacas, os campos cultivados e aquela imagem dos Açores que percorre o mundo não apareceram por acaso. São resultado de gerações de agricultores que trabalham e preservam o território. O próprio turismo beneficia diretamente dessa paisagem. Sem agricultores, uma parte significativa daquilo que vendemos como destino turístico simplesmente deixará de existir.
Por isso temos defendido uma ligação muito maior entre agricultura, produção regional e turismo. Quem chega aos Açores deve conhecer também as nossas explorações, os nossos produtores e a origem dos produtos que encontra à mesa. A própria conversa na Povoação deixou uma ideia que merece ser explorada: promover visitas às explorações agrícolas e integrar verdadeiramente a lavoura na experiência turística açoriana.
A defesa da lavoura não pode resumir-se a discursos quando chegam as crises.
É preciso lutar por um preço justo à produção, redução dos custos que esmagam as explorações, valorização dos produtos açorianos, renovação geracional, maior poder negocial dos produtores e uma verdadeira integração da agricultura na estratégia económica e turística da Região.
O problema que encontramos na Povoação não é apenas da Povoação. Não é apenas de São Miguel. É também sentido noutras ilhas e deve ser encarado como um problema regional.
Porque quando desaparece um agricultor, não perdemos apenas uma exploração.
Perdemos produção, economia, território, paisagem e uma parte da nossa identidade.
E quando quem trabalha a terra começa a dizer aos filhos e aos jovens que não vale a pena seguir o mesmo caminho, então já não estamos perante um simples problema agrícola.
Estamos perante um aviso sério sobre o futuro dos Açores.
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