InícioOpiniãoO PATRIMÓNIO QUE A NOSSA ILHA NÃO PODE ESQUECER

O PATRIMÓNIO QUE A NOSSA ILHA NÃO PODE ESQUECER

Há lugares na nossa ilha de São Jorge que guardam muito mais do que paisagens bonitas. Guardam história, memória, trabalho e o legado de gerações que, com enorme esforço e sacrifício, construíram aquilo que hoje temos a responsabilidade de preservar.

O sismo de 1980 marcou profundamente a nossa ilha e muitas das suas comunidades. Algumas zonas ficaram abandonadas ou perderam parte da sua população e da sua atividade, mas não perderam o seu valor histórico, cultural e natural. Pelo contrário: permanecem como testemunhos de uma forma de vida que não devemos deixar desaparecer.

É o caso de lugares como a Fajã do Sanguinhal, a Fajã Redonda e Entre Ribeiras entre outras, onde ainda encontramos vestígios de um património que merece ser conhecido e valorizado.

As antigas pontes de pedra, os caminhos, os muros e a própria escadaria da Fajã Redonda são exemplos de uma arquitetura rural construída pelas mãos dos nossos antepassados, muitas vezes em condições difíceis e sem os meios de que hoje dispomos.

Mas estes lugares não têm apenas património material.

Têm também uma riqueza natural extraordinária. As cascatas, as ribeiras, a vegetação, as encostas e toda a paisagem envolvente constituem um património natural que poderia integrar uma estratégia de valorização turística e ambiental.

Não se trata de transformar estes lugares em espaços massificados. Trata-se de os tornar acessíveis, conhecidos, interpretados e, acima de tudo, respeitados.

Outro exemplo que merece reflexão é o Pico Pelado a Gruta do Montoso.

Como é possível que um património natural com potencial para enriquecer a oferta turística e cultural da ilha continue praticamente desconhecido e sem uma verdadeira estratégia de valorização?

Uma gruta, devidamente estudada e acompanhada por especialistas, poderia integrar um percurso interpretativo, eventualmente associado a um pequeno centro de interpretação dedicado à geologia, à formação vulcânica da ilha e à relação das populações com este território.

Seria mais uma oportunidade para dar a conhecer uma parte da nossa identidade que permanece escondida.

Valorizar não significa necessariamente construir muito.

Muitas vezes, significa simplesmente conhecer, preservar, sinalizar, interpretar e divulgar.

Um centro interpretativo, painéis informativos, percursos pedestres devidamente preparados, a recuperação de elementos patrimoniais e uma divulgação adequada poderiam transformar estes lugares em pontos de interesse para quem nos visita, mas também, e talvez sobretudo, em espaços de conhecimento para os próprios habitantes da ilha.

É triste olhar para determinados lugares e perceber que aquilo que tanto custou aos nossos antepassados a construir está hoje a desaparecer lentamente.

Cada ponte de pedra, cada escadaria, cada caminho, cada muro e cada casa antiga conta uma história.

Foram construídos numa época em que o trabalho dependia essencialmente da força humana, da persistência e do sacrifício. Não podemos olhar para esse património apenas como pedras velhas ou estruturas sem utilidade.

São testemunhos da nossa história.

Uma ilha que pretende afirmar-se através do turismo, da natureza e da sua identidade não pode valorizar apenas aquilo que é mais fácil de promover.

Há também uma responsabilidade de olhar para os lugares esquecidos, para as zonas marcadas pelo sismo de 1980 e para o património que, apesar do abandono, conseguiu sobreviver.

Não se trata apenas de turismo.

Trata-se de respeito pela nossa memória coletiva.

Os nossos antepassados deixaram-nos muito mais do que terrenos e construções. Deixaram-nos uma paisagem moldada pelo trabalho de várias gerações e um património que testemunha a forma como viveram, trabalharam e enfrentaram as dificuldades.

Temos hoje melhores meios, mais conhecimento e novas possibilidades de investigação e divulgação. Falta, muitas vezes, transformar esse conhecimento numa verdadeira vontade de preservar e valorizar.

A nossa ilha tem uma beleza extraordinária.

Mas a sua maior riqueza não está apenas nas paisagens que vemos.

Está também nas histórias que essas paisagens escondem.

Está nas pedras das antigas pontes, nos caminhos, nas escadarias, nas cascatas, nas grutas, nas fajãs e em tantos outros lugares que resistiram ao tempo.

Não deixemos que o abandono seja o destino do património que os nossos antepassados nos confiaram.

Preservá-lo não é apenas olhar para o passado.

É dar-lhe um futuro.

José Brasil
Dirigente CHEGA São Jorge

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