InícioOpiniãoGREVE OU FÉRIAS EXTRAORDINÁRIAS?

GREVE OU FÉRIAS EXTRAORDINÁRIAS?

Mais uma vez, estamos em greve. E, mais uma vez, o cidadão comum, sobretudo nos
Açores, fica sem perceber ao certo o que se reivindica. A função pública é mal paga? Sim, é verdade. Mas será que os trabalhadores do setor privado são bem pagos?

Convém recordar que, na função pública, mesmo quem aufere o salário mínimo recebe, além do subsídio de refeição, um complemento regional. Trabalha 35 horas semanais, beneficia de sucessivas tolerâncias de ponto e tem uma progressão na carreira que, nos Açores, se tornou muito mais rápida com o fim do regime de quotas. Poucos trabalhadores do privado conhecem regalias semelhantes.

Não é por acaso que, sempre que o Estado abre um concurso público, concorrem
centenas de pessoas, mesmo sabendo que, em muitos casos, o lugar já tem dono antes
de o concurso abrir. Num país onde ser empresário é uma profissão de alto risco, com a falência sempre à espreita, e onde o Estado e os seus serviços parecem apostados em infernizar a vida de quem quer investir, não admira que tantos trabalhadores olhem com desconfiança para o setor privado e prefiram um emprego público. Nem que seja de porteiro num qualquer departamento do Estado, ou num desses lugares artificiais, feitos à medida do candidato, em que o trabalho se resume a contar gambuzinhos.

Agora que os sindicatos vergaram o Governo Regional e o Governo da República,
conquistando reposições salariais nunca vistas e progressões nas carreiras sem quotas, eis que as greves regressam em força. No tempo do PS, com tudo congelado e horas extraordinárias por pagar há anos, os sindicatos andavam calmos e os Mários Nogueiras desta vida pareciam satisfeitos. Basta chegar ao poder um governo de centro-direita ou de direita para que, por mais que se dê, nunca seja suficiente.

O novo cavalo de Troia sindical são as chamadas “carreiras especiais”. De repente, toda a gente quer ser especialista, exercer uma profissão de elevado risco e de desgaste rápido. Na prática, o objetivo é continuar a fazer o mesmo, reformar-se mais cedo, trabalhar menos horas (a tal semana das 30 horas, que para alguns já parece ser de 30 miinutos) e ganhar muito mais. Resultado: gabinetes cheios de especialistas em papéis, a produzir burocracia que os não especialistas, os do privado, pagam em impostos. Já ninguém aguenta isto. Os portugueses estão exaustos de financiar uma máquina profundamente improdutiva.

Há ainda outra questão incontornável: a estranha coincidência de as greves calharem quase sempre encostadas a fins de semana ou a pontes. Se os grevistas querem o respeito e a consideração do resto da sociedade, que acabem com esta hipocrisia de fazer greve para ganhar dias de férias, em vez de expor as razões objetivas da luta. Antes percebia-se porque se fazia greve. Hoje percebe-se que a greve se tornou mais uma forma de não trabalhar, a somar a tantas outras, como as baixas fraudulentas, cujo peso na função pública é exageradamente elevado.

Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

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