Há territórios que precisam de lutar para serem conhecidos. E há outros que, tendo uma identidade própria e condições únicas, precisam sobretudo de aprender a trabalhar em conjunto.
O Triângulo dos Açores — Faial, Pico e São Jorge — pertence claramente a esta segunda categoria.
Três ilhas próximas, mas diferentes. Três paisagens, três identidades e três experiências que, juntas, podem formar um dos destinos mais singulares do Atlântico.
A questão já não é saber se o Triângulo tem potencial. É saber se estamos a aproveitar esse potencial.
Os números, as infraestruturas e a oferta turística mostram que ainda há muito por fazer.
O desafio passa por deixar de olhar para três ilhas que competem entre si e começar a construir um território complementar, integrado e com uma proposta própria.
Os números mostram que existe procura externa
O mercado alemão representou 19,7% das dormidas no Pico, 15,6% no Faial e 11,7% em São Jorge.
Ou seja, o Triângulo já tem capacidade para atrair visitantes internacionais. O desafio está em transformar essa procura em maior permanência, maior valor económico e uma distribuição mais equilibrada ao longo do ano.
O problema não é apenas ter mais camas
Crescer não pode significar simplesmente construir mais alojamento.
O verdadeiro desafio é estruturar melhor a oferta e conseguir utilizá-la durante todo o ano.
Temos alojamentos, restaurantes, empresas de animação, guias, rent-a-car e atividades marítimas. Mas, durante uma parte significativa do ano, não conseguimos transformar essa capacidade instalada numa verdadeira economia turística.
Não basta atrair turistas em julho e agosto. É preciso criar razões para visitar o Triângulo em março, abril, maio, outubro e novembro.
A época baixa não pode ser uma época perdida
A sazonalidade continua a ser uma das maiores fragilidades do turismo açoriano.
Em 2025, agosto concentrou 16% das dormidas dos Açores, julho 14,8% e setembro 11,9%. Quase 43% das dormidas ocorreram nesses três meses.
Mas o Pico não desaparece em novembro. O mar continua lá. As fajãs de São Jorge continuam lá. As paisagens do Faial, a gastronomia, a cultura e as atividades de natureza também.
O que desaparece é uma parte significativa da procura.
É aqui que temos de ser mais criativos: criar produto, conectividade, promoção e organização capazes de transformar a época baixa numa oportunidade económica.
Se queremos voos charter, temos primeiro de criar produtos charter
Uma ideia que merece ser estudada é a criação de operações charter durante a época baixa, a partir de grandes cidades europeias como Frankfurt, Munique, Paris, Londres, Madrid, Barcelona, Amesterdão, Bruxelas ou Zurique.
Não se trata de afirmar que amanhã teremos aviões cheios. Trata-se de criar condições para testar mercados.
Um voo charter não se vende sozinho. Primeiro é necessário criar o produto.
Podemos imaginar programas de cinco, sete ou dez noites que integrem as três ilhas: chegada ao Faial, descoberta da ilha, passagem pelo Pico com experiências de natureza, vinho e mar, e depois São Jorge, com as fajãs, os trilhos, o queijo, a cultura e a paisagem.
Três ilhas. Uma viagem. Uma experiência.
Para isso, é necessária uma estratégia conjunta entre empresários, operadores turísticos, transportadoras, entidades públicas e setor aéreo, baseada em procura real, capacidade disponível e preços competitivos.
O Triângulo precisa de ser vendido como um destino
Hoje, Faial, Pico e São Jorge são frequentemente promovidos como destinos individuais.
E se começássemos a apresentar uma ideia diferente?
Triângulo dos Açores.
Uma marca territorial que una as três ilhas sem apagar as suas identidades.
Faial continuaria a ser Faial. Pico continuaria a ser Pico. São Jorge continuaria a ser São Jorge.
Mas, internacionalmente, poderíamos apresentar uma experiência integrada que nenhuma das três ilhas consegue oferecer sozinha.
Uma marca não é apenas um logótipo. É uma promessa.
E a promessa do Triângulo poderia ser simples: três ilhas próximas, três mundos diferentes, uma experiência única.
Mais valor, não simplesmente mais volume
O objetivo não deve ser transformar o Triângulo num destino de turismo de massas. A nossa vantagem está precisamente naquilo que nos diferencia: natureza, autenticidade, paisagem, mar, montanha, cultura, gastronomia e experiências.
Devemos procurar mais valor, não simplesmente mais volume.
Um visitante que permanece sete noites gera um impacto económico diferente daquele que fica duas. E quem percorre as três ilhas, utiliza alojamento, restauração, atividades e comércio local distribui melhor a sua despesa pela economia do território.
Por isso, precisamos de olhar para indicadores como permanência média, despesa turística, distribuição territorial da procura, emprego criado e valor acrescentado local.
Em 2025, a estada média nos Açores foi de 3,30 noites, subindo para 3,64 noites nos mercados externos. Existe margem para fazer mais.
Infraestruturas: o turismo começa muito antes do hotel
Não podemos querer mais turismo sem tornar o território mais acessível.
Precisamos de melhores portos, ligações aéreas eficientes, transportes marítimos previsíveis, boas estradas, comunicações digitais e informação turística integrada.
Quem chega ao Faial deve conseguir perceber facilmente como chegar ao Pico. Quem está no Pico deve saber como visitar São Jorge.
O destino tem de ser simples de compreender e fácil de percorrer.
E o mar pode ser parte dessa solução.
Faial, Pico e São Jorge estão suficientemente próximos para constituírem um território turístico integrado. Horários coordenados, bilhética integrada, informação em tempo real e novas soluções de mobilidade marítima podem fazer uma diferença significativa.
A própria travessia entre ilhas pode deixar de ser apenas uma deslocação e passar a fazer parte da experiência.
Turismo, economia azul e pessoas
O turismo não pode ser apenas camas. Deve ligar o visitante à economia local: agricultura, pesca, vinho, queijo, restauração, artesanato, cultura, ciência, economia do mar e empresas de animação.
Temos condições para desenvolver produtos ligados à observação de cetáceos, mergulho, vela, surf, pedestrianismo, montanhismo, geologia, natureza e património.
Mas o futuro do Triângulo também não pode depender apenas do turismo.
Investigação científica, aquacultura sustentável, biotecnologia, observação do oceano, energias renováveis, tecnologias marítimas e turismo científico podem contribuir para criar empregos qualificados e fixar população.
As três ilhas têm condições para se afirmarem como um pequeno laboratório atlântico de inovação ligada ao oceano.
Porque este deve ser o objetivo maior de qualquer estratégia de desenvolvimento: criar futuro para quem cá vive.
Isso implica também habitação, formação, saúde, educação, mobilidade e apoio ao empreendedorismo.
O turismo deve ser uma ferramenta de desenvolvimento. Nunca um fim em si mesmo.
Uma estratégia para dez ou vinte anos
Talvez um dos nossos problemas seja pensarmos demasiado a quatro anos.
Os territórios não se transformam em quatro anos. Uma marca internacional, uma rede de transportes ou uma nova economia também não.
Precisamos de uma estratégia para dez ou vinte anos, construída com municípios, Governo Regional, empresários, associações, trabalhadores, instituições científicas e população.
Uma estratégia com objetivos concretos: mais visitantes na época baixa, maior permanência média, melhores ligações entre ilhas, mais mercados internacionais, mais produtos turísticos, mais emprego qualificado, maior valor acrescentado local e maior capacidade para fixar jovens.
O momento de pensar grande é agora
Os números mostram que existe mercado.
Em 2025, os Açores registaram 4,6 milhões de dormidas nos meios de alojamento, mais 4,6% do que em 2024. Os mercados externos representaram 70% dessas dormidas e cresceram 7,3%.
A Alemanha foi o principal mercado externo, seguida dos Estados Unidos e de Espanha.
Temos, portanto, um mercado internacional que já conhece os Açores.
O desafio é conseguir que uma parte maior desse mercado descubra o Triângulo — e que o descubra como uma experiência integrada.
Não precisamos de inventar um destino. Precisamos de organizar, ligar e promover melhor aquilo que já temos.
Faial, Pico e São Jorge não precisam de perder a sua identidade. Precisam de ganhar escala.
Precisamos de trabalhar em conjunto. De uma estratégia. De uma marca. De melhores ligações. De investimento. E, sobretudo, de coragem para pensar para além do próximo verão.
O Triângulo pode afirmar-se como um dos grandes projetos de desenvolvimento turístico e económico dos Açores.
Mas isso exige uma mudança de escala: deixar de pensar em três ilhas isoladas e começar a construir um território.
Três ilhas. Uma marca. Um destino. Um futuro.
José Brasil
Dirigente Regional do CHEGA Açores em São Jorge

