InícioOpiniãoAFINAL O QUE É AUTONOMIA?

AFINAL O QUE É AUTONOMIA?

Ouvindo as notícias na rádio que davam conta dos 50 anos da Autonomia dos Açores, questionam-me “o que é a Autonomia? Os Açores têm isso?”.
As questões de alguém com 12 anos fizeram-me pensar. Também eu as pensei quando aqui cheguei, há 25 anos, e sabia muito pouco da realidade dos Açores. Na altura, os Açores eram destino de lua-de-mel já que, apesar de serem Portugal, eram um local ainda longínquo, desconhecido e caro. Quer para quem quisesse vir, quer para quem quisesse sair. Houve mudanças, algumas para melhor – permitindo a saída dos Açorianos a um preço mais justo, apesar das dificuldades de fazer fila nos CTT para o reembolso e, agora, com a plataforma que dá mais dores de cabeça do que quando o único problema era esperar nos Correios.
Respondi à primeira questão fazendo uma analogia com uma família. Um filho enquanto cresce, depende dos pais para tudo. À medida que vai crescendo, vai conseguindo fazer as coisas por si, começando por atar os sapatos ou tomar banho sozinho, passando depois para apanhar um autocarro, levar o lixo à rua, conseguir cozinhar, ganhar o seu próprio dinheiro, ter a sua própria família. No fundo conseguir fazer sozinho aquilo para que antes tinha de ser ajudado, supervisionado. Mas com os pais sempre lá, a ajudar quando é necessário: com sabedoria, com aconchego, às vezes com dinheiro.
E será que os Açores têm “isso”? Têm. Mas precisam de ter mais.
Os Açores conseguiram construir aeroportos em todas as ilhas, dando liberdade a quem lá vive para sair e aos de fora para conhecerem. No entanto, a mobilidade aérea precisa de medidas concretas e não de esmolas ou de “castigos do papá, que não deixa o jovem sair de casa”.
Os Açores têm os seus três hospitais e centros de saúde em todas as ilhas. Já não é preciso apanhar um avião para Lisboa para fazer um (agora) simples exame. Ainda há necessidade de se recorrer ao continente ou ao hospital de Ponta Delgada, mas, como é compreensível, nem todos os hospitais têm todas as especialidades médicas disponíveis. Mas, é preciso cuidar e melhorar das estruturas existentes, não só ao nível da construção, mas também ao nível dos recursos humanos.
Os Açores construíram escolas, muitas delas agora degradadas por falta de manutenção e que, os Conselhos Executivos, têm dificuldade em arranjar com os seus parcos orçamentos. Antes de se lançar intenções e projectos para a construção de novas escolas, é preciso avaliar se não faria mais sentido, ou se não seria mais barato, recuperar e remodelar o que existe.
Os Açores têm uma Universidade que dá resposta a uma grande maioria das necessidades actuais. Tripartida, para ajudar ao desenvolvimento das ilhas onde se insere e para uma maior proximidade aos potenciais alunos das restantes ilhas. E essa tripolaridade custa caro e precisa de receber a mesma atenção financeira – ou até maior – do que as restantes instituições de ensino superior do continente.
Os Açores têm uma Zona Económica Exclusiva que acrescenta dimensão a Portugal e à Europa, que pode ser uma mais-valia estratégia e económica para a Região. Mas os recursos para a defender são escassos, não havendo verdadeiro empenho numa estratégia de defesa para os perigos que enfrenta – e basta ver as recentes apreensões de submarinos com toneladas de droga ou os barcos estrangeiros que depenam o peixe do nosso mar.
No entanto, Autonomia não significa apenas ter órgãos de Governo próprio. É preciso ter capacidade efectiva de tomar decisões e ter a coragem de as tomar – muitas vezes contra a própria cor política.
Autonomia não pode significar estar constantemente dependente de transferências financeiras arbitrárias e engordar a máquina do Estado, havendo pouco espaço para o investimento público.
A Autonomia precisa de ser também reivindicativa, de ter coragem, de ter estratégia de futuro, de ser mais decidida, de ter mais responsabilidades e de ser mais do que uma palavra.
É que os Açores já são “crescidos”, têm aprendido ao longo de 50 anos a pensar, a fazer e a recuar quando necessário. No fundo, a terem maturidade para decidir e administrar sem desculpas.
Com 50 anos, a Autonomia já tem idade suficiente para deixar de pedir licença para crescer. Vamos em frente!

Carla Dias
Chefe de Gabinete e Secretária-Geral do CHEGA Açores

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