É sempre positivo discutir a requalificação dos espaços públicos da Ribeira Grande. O Jardim do Paraíso merece, naturalmente, ser valorizado e devolvido à população nas melhores condições.
Mas uma proposta desta natureza não pode limitar-se a desenhar novos equipamentos, criar um bar ou restaurante, colocar um parque infantil ou estabelecer uma ligação pedonal ao Passeio Atlântico. É preciso começar por resolver os problemas que atualmente condicionam a utilização daquele espaço.
Comecemos pelo mais básico: o cheiro.
Quem conhece aquela zona sabe que, em determinadas circunstâncias, existe um problema desagradável de odores junto à ribeira, associado à qualidade das águas e às águas residuais que ali chegam.
Portanto, antes de se pensar em criar esplanadas, espaços de restauração, zonas de lazer ou usar o anfiteatro junto à ribeira, é fundamental identificar claramente a origem desse problema e resolvê-lo.
Não faz sentido investir centenas de milhares de euros na valorização de um espaço para depois as famílias, crianças e visitantes serem confrontados com maus cheiros provenientes da própria ribeira.
Primeiro resolvem-se os problemas ambientais e de salubridade. Depois criam-se as condições para as pessoas usufruírem plenamente do espaço.
Mas há outra questão que não pode ser esquecida: a segurança.
O Jardim do Paraíso é uma zona central da cidade, mas é também uma área que, infelizmente, é frequentada por algumas pessoas com problemas de toxicodependência. Não se trata de estigmatizar ninguém. Trata-se de reconhecer uma realidade que é conhecida por quem vive, trabalha ou circula naquela zona.
Se queremos que o Jardim do Paraíso seja verdadeiramente um espaço para famílias, crianças, idosos, turistas e para todos os Ribeiragrandenses, a segurança tem de fazer parte do projeto desde o primeiro momento e não ser uma preocupação posterior.
Mais iluminação, melhor visibilidade dos espaços, eliminação de zonas escondidas, manutenção regular, videovigilância legalmente adequada e uma presença policial mais próxima são medidas que devem ser ponderadas.
Um jardim público só é verdadeiramente público quando as pessoas se sentem seguras para o utilizar.
E segurança não significa apenas polícia.
Por isso, se estamos a falar de revitalização, a segurança tem de ser uma das prioridades desta mesma revitalização.
Há depois uma outra questão que merece ser muito bem ponderada: a proposta de retirar os campos de padel do centro da cidade e transferi-los para a zona do parque industrial.
À primeira vista pode parecer uma solução interessante para libertar espaço no Jardim do Paraíso. Mas será mesmo?
Os campos de padel são hoje um equipamento que leva pessoas ao centro da Ribeira Grande. São utilizadores que circulam naquela zona, estacionam, frequentam cafés, restaurantes e outros estabelecimentos e contribuem para a dinâmica económica do centro urbano.
Retirar esse equipamento do centro pode significar precisamente o contrário daquilo que deveríamos procurar: trazer pessoas para o centro e não afastá-las dele.
E existe ainda outra questão: transferir os campos para uma zona industrial não garante, por si só, uma melhor solução. Pelo contrário, uma localização mais afastada da zona habitacional e comercial poderá significar menos circulação de pessoas e, consequentemente, menos vigilância natural sobre os materiais dos próprios campos.
Quanto mais vida existe num espaço público, maior tende a ser também a sua segurança.
Por isso, antes de retirar os campos de padel, deveria ser estudado se não será possível integrá-los na futura solução do Jardim do Paraíso ou encontrar uma localização urbana que continue a contribuir para a dinâmica da cidade.
E há ainda uma questão fundamental: não podemos esquecer o comércio e a economia do centro da Ribeira Grande.
Cada equipamento que retiramos do centro representa potencialmente menos pessoas a circular no centro. Se queremos revitalizar o comércio tradicional, temos de criar motivos para que as pessoas permaneçam na cidade, não simplesmente deslocar atividades para zonas periféricas.
Requalificar não é apenas construir novo.
Requalificar é preservar aquilo que funciona, corrigir aquilo que está mal e acrescentar novas valências.
O Jardim do Paraíso precisa de ser pensado em conjunto com o centro histórico, a ribeira, o Passeio Atlântico, o comércio local e os restantes equipamentos municipais.
Precisamos de uma visão de conjunto.
Queremos uma Ribeira Grande onde as pessoas tenham motivos para sair de casa, frequentar o centro, praticar desporto, levar os filhos ao parque, sentar-se numa esplanada, assistir a um espetáculo e simplesmente desfrutar da cidade.
Mas para isso acontecer é preciso garantir limpeza, salubridade, segurança, estacionamento, acessibilidade e atividade.
Por isso, discutir a requalificação do Jardim do Paraíso é importante. Mas a discussão não pode ficar pelas ideias bonitas e pelas imagens de um futuro projeto.
É preciso responder a questões concretas:
O que será feito para eliminar os maus cheiros da ribeira?
Que medidas serão tomadas para garantir a segurança de quem utiliza o jardim?
Como será combatida a degradação e o eventual vandalismo?
Porque razão se pretende retirar os campos de padel do centro, quando estes contribuem para trazer pessoas à cidade?
São estas respostas que os Ribeiragrandenses merecem.
Porque requalificar por requalificar não chega.
Queremos um Jardim do Paraíso bonito, sim. Mas queremos sobretudo um Jardim do Paraíso seguro, limpo, vivo e verdadeiramente dos Ribeiragrandenses.
E isso exige mais do que uma boa ideia.
João Luís da Câmara
Deputado Municipal do CHEGA na Ribeira Grande

