InícioOpiniãoJOÃO SOARES E A INDECÊNCIA

JOÃO SOARES E A INDECÊNCIA

João Soares, convidado da Universidade de Verão do PSD, classificou como uma “indecência” a comparação feita por Hugo Soares entre José Luís Carneiro e André Ventura. É uma palavra forte. Talvez forte demais para quem pertence a um partido que deveria ser prudente na hora de distribuir certificados de decência.

Indecente foi um ministro da Cultura ameaçar publicamente dar “salutares bofetadas” a dois cronistas por não apreciar o que escreviam. Esse ministro chamava-se João Soares e acabou por se demitir em 2016.

Indecente é esta superioridade moral de um PS que teve José Sócrates como secretário-geral e primeiro-ministro de Portugal e que tem Armando Vara, antigo ministro socialista, condenado no processo Face Oculta, e o outro camarada Manuel Pinho, antigo ministro da Economia, condenado a dez anos de prisão por corrupção passiva, branqueamento e fraude fiscal.

Indecente é esquecer que, já com António Costa em São Bento, foram encontrados 75.800 euros no gabinete do seu chefe de gabinete, Vítor Escária, escondidos em livros e caixas de vinho.

Indecente é a endogamia de poder promovida pelo PS. Em 2019, o Governo socialista de António Costa contava com mais de duas dezenas de relações de parentesco no Governo e na máquina do Estado. No mesmo Governo encontrávamos Vieira da Silva e a filha, Mariana Vieira da Silva, bem como Eduardo Cabrita e a mulher. O fenómeno tornou-se tão embaraçoso que ficou conhecido como “Familygate”.

O PS, nestes últimos 50 anos, transformou a máquina do Estado numa agência de emprego para familiares, amigos e camaradas. E isto é indecente. Os portugueses comuns entregam currículos, fazem entrevistas e submetem-se a concursos, não arranjam emprego com o cartão rosa.

Também foi indecente Portugal ter recorrido três vezes à assistência financeira externa — em 1977, 1983 e 2011. Nas três ocasiões, o Governo era chefiado por um primeiro-ministro socialista. Mais indecente é o Partido Socialista, apesar de ser o partido que mais tempo esteve na governação, ter arrastado Portugal para esta situação de pobreza vergonhosa em que se encontra.

Indecente é ainda alimentar esta cultura de clientelismo, de nomeações partidárias e de “tachos políticos” para dar emprego a gente incompetente e despreparada que tem arruinado o país, empurrando Portugal para a cauda da Europa, atrás dos países da Europa de Leste.

Se o PS quer falar de indecência, talvez deva começar dentro de casa: afastar quem confunde poder com benefício próprio, romper com o compadrio e o clientelismo e acabar com a ideia de que o Estado é uma extensão do partido.

Ninguém pode negar que o PS deu contributos importantes para a democracia portuguesa. Mas isso não lhe concede a propriedade da democracia, nem um certificado vitalício de decência. Pelo contrário, o extenso rol de condenações e casos judiciais ainda em curso levanta muitas dúvidas sobre a conduta de várias figuras que gravitaram em torno do partido e que cometeram crimes no exercício de funções políticas.

Enquanto o PS não fizer essa limpeza e esse ato de contrição, João Soares tem pouca autoridade moral para acusar os outros de falta de decência — a não ser que não existam espelhos no Largo do Rato.

E, se João Soares quer agora atribuir certificados de decência, talvez seja melhor começar por investigar os certificados de habilitações de alguns dos seus mais ilustres socialistas que se apresentam como “doutores” depois de fazerem cursos por equivalências e cadeiras ao fim de semana.

Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

RELATED ARTICLES

Deixe um comentário

Most Popular

Recent Comments