Há políticos na nossa Região que, de tempos a tempos, surgem em público com discursos empolgantes, como se tivessem acabado de descobrir a pólvora. Multiplicam-se expressões sonantes e novas fórmulas linguísticas: fala-se da “nossa condição arquipelágica” em vez de simplesmente arquipélago; garante-se que “tudo está em cima da mesa”, mesmo quando o assunto é o lixo urbano; invoca-se o “valor acrescentado” para quase tudo. E assim sucessivamente, numa sucessão de chavões repetidos até à exaustão.
A retórica muda, mas a realidade permanece igual.
Quando o tema é o desenvolvimento económico, todos defendem a criatividade, a inovação e a necessidade de fazer diferente. Fala-se da importância de explorar nichos de mercado, de transformar as nossas limitações em oportunidades e de valorizar aquilo que nos torna únicos: uma Região isolada no meio do Atlântico, situada entre dois dos maiores blocos económicos do mundo, a Europa e a América.
O discurso é apelativo. O problema começa quando alguém leva essas palavras a sério.
Quando surge um cidadão, um empresário ou um empreendedor com uma ideia verdadeiramente inovadora, capaz de criar riqueza e projetar a Região, entram imediatamente em ação os pequenos poderes instalados. As chefias intermédias sentem-se desafiadas por quem ousa pensar de forma diferente. Não porque o projeto seja ilegal, mas porque a ideia não nasceu dentro da sua esfera de influência, dessa nova casta emergente.
A primeira reação raramente é procurar uma solução. É encontrar um obstáculo. Multiplicam-se as interpretações restritivas da lei, levantam-se dificuldades administrativas e inventam-se argumentos que, muitas vezes, refletem mais preconceitos pessoais do que fundamentos jurídicos. A burocracia deixa de ser um instrumento ao serviço do interesse público para se transformar num mecanismo destinado a travar a inovação.
Perante esta resistência, o promotor do projeto procura apoio junto daqueles políticos que, nos discursos, tanto elogiam a criatividade. Espera encontrar coragem política para desbloquear o processo. Na maioria das vezes, encontra silêncio. Ou pior: encontra a confortável neutralidade de quem prefere não contrariar os pequenos — mas influentes — poderes instalados. Tal como Pilatos, lavam as mãos.
Assim, a criatividade acaba por embater na inércia da máquina administrativa. A inovação cede perante a burocracia. As oportunidades perdem-se, os investimentos são abandonados e a economia regional continua presa aos mesmos bloqueios de sempre.
Enquanto continuarmos a aplaudir discursos sobre inovação, mas a penalizar quem realmente inova, estaremos condenados ao marasmo económico. Não será por falta de ideias, mas por excesso de conformismo, medo da mudança e burocracia atroz.
Uma Região não progride com discursos sobre criatividade. Progride quando quem governa tem a coragem de enfrentar a burocracia, responsabilizar quem bloqueia sem fundamento e proteger quem arrisca, investe e cria riqueza.
É esta, salvo raras exceções, a realidade da nossa Região.
Vencido? Talvez.
Convencido? Nunca.
José Bernardo
Deputado Municipal em Angra do Heroísmo e Presidente da Mesa do CHEGA Açores

