O DIA EM QUE AS CONSEQUÊNCIAS BATERAM À PORTA

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Falo muitas vezes sobre responsabilidade política, mas há momentos em que a realidade nos obriga a ser ainda mais claros: a fatura bate sempre à porta. E estamos hoje a pagar um preço alto por escolhas erradas feitas durante décadas nos Açores e no país.

Alimentar quem não quer trabalhar criou uma cultura de dependência que nos deixou sem mão-de-obra disponível. Basta falar com qualquer empresário, agricultor, pescador ou comerciante: todos dizem o mesmo. Há trabalho, mas falta quem queira trabalhar. Criou-se a ideia de que viver do Estado é mais cómodo do que contribuir para ele. É injusto para quem acorda cedo, paga impostos e sustenta este sistema.

O caso da SATA é outro exemplo gritante. Durante anos foi usada como brinquedo político, como banco de favores, como plataforma para colocar amigos. Hoje colhe-se aquilo que se plantou: uma empresa frágil, que ameaça a nossa mobilidade, essencial para um arquipélago como o nosso. Não foi falta de alertas; foi falta de coragem para enfrentar o problema.

A normalização da corrupção, do compadrio e do amiguismo também teve consequências. Quando estas práticas são aceites como “normais”, combater desvios passa a ser quase uma missão impossível. E quem perde? Os cidadãos, as empresas, os contribuintes, a confiança pública.

Somemos a isto décadas de tentativas de agradar a todos — todas as terras, todas as ilhas, todos os interesses — mesmo quando não havia dinheiro para tanto. Resultado: agora não há dinheiro para nada do que realmente importa. A boa gestão foi substituída pela política do favor. E o preço está aí.

O pior de tudo é a erosão da confiança. O enganar constante do povo por parte de muitos políticos afastou cidadãos sérios da vida pública. Quem quer se sujeitar a insultos, ataques pessoais, mal-entendidos e tentativas de destruição? Poucos. E esta ausência de gente séria na política acaba por abrir espaço para ainda mais mediocridade.

Olho para tudo isto e penso: chamamos-lhe democracia, mas por vezes é difícil ver onde ela está. Porque num sistema verdadeiramente democrático, as más decisões têm consequências — e essas consequências acabam sempre por aparecer. Mais cedo ou mais tarde, batem-nos à porta como uma fatura pesada que não pode ser ignorada.

Mas apesar deste cenário, não desisto. Não me resigno. Acredito que ainda há futuro se fizermos aquilo que nunca quisemos fazer: romper com os vícios do passado, combater sem medo o que está mal, valorizar quem trabalha e punir quem abusa, e reconstruir a confiança sem truques nem ilusões.

A fatura já chegou. Agora é tempo de mudar, antes que a próxima seja ainda mais cara.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores