O provérbio popular “não confundir a árvore com a floresta” aplica-se a muitas situações do mundo real, no bom e no mau sentido. Na economia, uma empresa de sucesso na Venezuela (árvore) não permite concluir que a maioria das empresas na Venezuela (floresta) tenham sucesso. De vez em quando cai um avião, mas por cair um avião ocasionalmente (árvore) as pessoas mantêm confiança nesse meio de transporte (floresta). As companhias de seguros fazem seguros de vida, mas todos os dias morrem segurados (árvore), mas isso não inviabiliza que os outros (floresta) continuem a pagar as suas apólices e o negócio floresça. O mesmo se aplica à ciência e a todos os outros acontecimentos da vida das pessoas e extrapolar e fazer generalizações baseados em acontecimentos pontuais, diz o bom senso (e a matemática) que é imprudente e dá maus resultados.
O ex-deputado do Chega Miguel Arruda, pessoa simples do Nordeste com pronúncia carregada, é suspeito de andar a furtar malas em aeroportos. Apesar de ainda não ter sido acusado de nada, apesar de não sabermos o valor dos supostos furtos, apesar de não se ter declarado culpado, apesar de o processo estar em segredo de justiça (mal guardado como é habitual em Portugal), já está mais que condenado em praça pública – só faltou mesmo fazer uma fogueira e queimá-lo em praça pública como se fazia na idade média.
Fica claro que a simples suspeita de tão patética conduta do ainda deputado não inscrito Miguel Arruda, levantou graves problemas de credibilidade e o seu ex-partido, naturalmente, desvinculou-se dele e apontou-lhe a porta da rua. Mas nós os portugueses, nomeadamente aqueles que ainda pensam pela sua cabeça, que espero seja a maioria, acreditam que é necessário haver um julgamento num tribunal para que se possa condenar ou absolver Miguel Arruda dos crimes de que é suspeito, sendo certo que até à data o único crime que está provado que aconteceu foi a violação do segredo de justiça. Não acredito que a maioria dos portugueses sinta saudades do regresso à barbárie, à época da caça às bruxas, aos julgamentos sumários. Ou será que preferem substituir os tribunais pelas redes sociais e pelos jornalistas?
Mas várias perguntas ficam no ar: será que se fosse deputado de outro partido teria a mesma notoriedade? Será que aquela pronúncia carregada de “micaelense” também está a ser motivo de graçolas para além do aceitável? Será que a origem do deputado (Açoriano) perante a comunicação social centralista não inflacionou o problema nos media? Por que razão outras notícias recentes como um deputado embriagado que atropelou uma criança, ou um juiz acusado de pedofilia, ou de um Secretário de Estado que antes de aprovar a lei dos solos cria uma empresa imobiliária, deixou de ser notícia?
Miguel Arruda com esta trapalhada conseguiu eclipsar Vítor Escaria e os 75.800 euros escondidos em livros no gabinete do assessor de António Costa bem como a Pen Disk que, soube-se esta semana, foi também apreendida no âmbito deste processo chamado “Influencer” e onde consta os nomes e as moradas de vários agentes que vai dar origem a mais um processo por violação do segredo de Estado, as malas de dinheiro descobertas na Madeira, o juiz acusado de pedofilia, o deputado que atropelou uma criança, o Secretário de Estado que promove leis para favorecimento pessoal, as pessoas que morreram por falta se socorro do INEM, as violações no Martim Moniz, as gémeas, os despedimentos ilícitos no Bloco de Esquerda e toda a podridão deste país que anda por aí. Miguel Arruda se não for condenado vai ser lembrado como o único homem que, em duas semanas, limpou o país das más notícias.
Enquanto Miguel Arruda está sendo crucificado em praça pública, com a comunicação social acampada do lado de fora de sua casa, José Sócrates passeia-se na Ericeira, Ricardo Salgado continua em estado alegadamente de “esquecimento”, Armando Vara continua a receber a sua reforma vitalícia de político enquanto está preso na cadeia de Évora e os quase 200 políticos acusados ou condenados por corrupção e outras trafulhices, andam por aí todos porreiros da vida.
Agora não somos o país dos três “F” – “Futebol, Fado e Fátima”, agora somos o país dos três M: Miguel, Miguel, Miguel o das malas.
E que Deus nos acuda!
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores




