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6 DE JUNHO DE 1975 – O DIA EM QUE A TERRA GRITOU

Há datas que ficam marcadas na memória de um povo como feridas abertas, não por serem dolorosas, mas por nunca serem verdadeiramente saradas. Uma dessas datas é 6 de junho de 1975.

Nesse dia, em São Miguel, a terra gritou. E gritou com voz de lavrador, de enxada, de vaca ordenhada, de raiva contida durante décadas. Foi a Revolta da Lavoura. Mas foi também muito mais.

Era um tempo conturbado. Portugal cambaleava nos meses a seguir à Revolução dos Cravos. No continente, os militares discutiam o rumo do país, entre ‘slogans’ vermelhos e ocupações de terras.

Por cá, nos Açores, sentíamos que algo não batia certo. E não batia. Enquanto Lisboa experimentava ideias revolucionárias, nós contávamos os tostões do leite, víamos os custos das rações a subir e ouvíamos falar de nacionalizações como quem ouve o trovão a anunciar a tempestade.

A paciência da lavoura esgotou-se. Em Ponta Delgada, milhares desceram à cidade para dizer basta. Era o grito de um povo que se recusava a ser peão num xadrez político que não entendia nem escolheu.

E a revolta não ficou só nos tratores e nas reivindicações agrícolas, havia um clamor mais profundo, quase existencial: o medo de perder a identidade, a liberdade, a autonomia que ainda nem tinha nascido.

Recordo esse dia não como nostalgia, mas como aviso. Porque hoje, passados quase 50 anos, muito do que levou o povo à rua continua por resolver.

Continuamos a ver os produtores agrícolas à beira da falência, continuamos a ser uma das regiões mais pobres de Portugal e, no entanto, continuamos a viver sobre um mar de riquezas e um solo de abundância.

Que paradoxo cruel este: uma terra fértil, um povo trabalhador, e um sistema que insiste em tratá-los como figurantes.

A Autonomia que conquistámos a ferros serve hoje, tantas vezes, como bandeira decorativa para discursos de ocasião. Mas que autonomia é essa que não decide, que não gere, que continua dependente do que Lisboa quer ou deixa de querer?

Se em 1975 gritávamos contra o comunismo e contra o abandono, hoje gritamos contra o esquecimento. E o eco é o mesmo. Mudaram os protagonistas, os partidos, os termos, mas a sensação de sermos periferia com sotaque continua viva.

Não defendo separatismos nem aventuras políticas. Sou açoriano, mas também português e patriota. Mas patriota é quem exige o melhor para a sua terra, e não quem aceita o silêncio confortável de quem já se resignou.

Por isso, enquanto viver, não me calarei. Porque há revoltas que não terminam, apenas mudam de forma. E enquanto houver um açoriano injustiçado, haverá um 6 de junho a pulsar na nossa memória coletiva.

6 de Junho de 2025

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
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