Recentemente, duas notícias chamaram a atenção e estão mais interligadas do que aparentam. A primeira é sobre a introdução do ensino de mandarim na Universidade dos Açores. Até aqui, nada de extraordinário. Afinal, aprender um novo idioma é sempre uma escolha pessoal e académica válida.
A segunda notícia diz respeito ao crescente interesse chinês na aquisição de produtos açorianos. O entusiasmo estampado nos rostos de alguns sugere que estamos diante de uma verdadeira “mina de ouro”. No entanto, será que essa percepção corresponde à realidade? O ditado popular adverte: “Com papas e bolos se enganam os tolos”.
A China tem uma estratégia global de expansão económica baseada na compra de ativos estratégicos em países pequenos e economicamente vulneráveis. Esta tem sido amplamente documentada em diversas regiões do mundo, onde investimentos iniciais se transformaram em domínio económico e, em alguns casos, até político. O perigo reside no facto de que os Açores, dada a sua posição geográfica estratégica no Atlântico, podem tornar-se um ponto-chave nos interesses chineses, afetando não apenas a autonomia regional, mas também os interesses europeus e da NATO.
Os Açores, situados numa encruzilhada geoestratégica entre a Europa, América e África, podem ser o próximo alvo desse movimento. O que à primeira vista parece uma oportunidade comercial pode, na verdade, abrir caminho para a aquisição de terras e empresas locais, alterando o equilíbrio económico da região em favor de interesses externos. No final das contas, corremos o risco de nos tornarmos meros empregados dos novos “donos disto tudo”.
Além disso, há a questão da dependência económica. Se os Açores se tornarem excessivamente dependentes do capital chinês, poderão perder a capacidade de tomar decisões independentes sobre o seu próprio desenvolvimento. Pequim não faz investimentos sem contrapartidas e, muitas vezes, utiliza a sua influência económica para pressionar governos locais e nacionais a alinharem-se com os seus interesses geopolíticos. A experiência de outros países mostra que a dívida e os compromissos assumidos com a China podem resultar em situações onde infraestruturas estratégicas, como portos e aeroportos, fiquem sob influência estrangeira. Não esquecendo o vasto mar açoriano que passará a ser dominado por grandes e modernas frotas chinesas, coisa que já começa a acontecer.
O que alguns encaram como uma oportunidade de negócio para os Açores, eu sempre percebi como um interesse estratégico dos chineses na nossa posição geográfica. No passado, essa localização teve um imenso valor militar, hoje, o seu potencial é essencialmente comercial. Já tinha sugerido a criação de um grande entreposto comercial, naval e aéreo, capaz de capitalizar esse interesse, mas sob controlo local, estabelecendo as nossas próprias regras e assegurando que os lucros revertessem para a região.
Entretanto, essa ideia corre o risco de ser explorada por investidores estrangeiros, enquanto os açorianos permanecem como meros espectadores, tal como aconteceu com a Base das Lajes. Mais uma vez, podemos acabar a assistir de fora enquanto decisões cruciais são tomadas sem que tenhamos verdadeira influência.
Enquanto os habitantes dos Açores enfrentam dificuldades para investir e prosperar na sua própria terra, estrangeiros com capital e ligações políticas podem encontrar caminho livre, especialmente se as leis forem ajustadas para facilitar esse processo. Vejam o caso das reservas marinhas.
Outro fator preocupante é o impacto cultural e social dessa presença crescente. A identidade açoriana, fortemente ligada à sua história e tradições, pode ser ameaçada se os interesses estrangeiros se sobrepuserem às prioridades locais. As pequenas comunidades podem sofrer mudanças significativas devido à chegada massiva de investidores e trabalhadores estrangeiros, alterando a dinâmica social e económica da região.
É o momento de refletir. O futuro está à porta, e talvez não seja tão promissor quanto nos querem fazer acreditar. Se não tomarmos a iniciativa de controlar a nossa própria economia, arriscamos ver a nossa terra e os nossos recursos escaparem das nossas mãos. A história ensina que aqueles que não protegem os seus interesses acabam dominados pelos interesses alheios.
Em conclusão, o melhor mesmo é ir aprender mandarim para podermos falar com os nossos futuros patrões.
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

