InícioOpiniãoENTRE A NATUREZA E O BETÃO: QUANDO O LIMITE É ULTRAPASSADO

ENTRE A NATUREZA E O BETÃO: QUANDO O LIMITE É ULTRAPASSADO

As construções de infra-estruturas com carácter turístico que se teima em construir em zonas naturais sensíveis, é um teste sério à coerência, à responsabilidade e ao respeito pelo território.
Aqui não está em causa o desenvolvimento, não está em causa o turismo, nem está em causa, ainda, o promotor. Está sim, em causa a ausência de limites.
Fala-se em zonas de elevado valor ambiental, em zonas de reservas naturais. Espaços que deveriam ser protegidos com rigor máximo e não tratados como mais oportunidades de negócio. O que está em causa é transformar o que é de todos em mais umas parcelas exploradas por alguns escolhidos a dedo.
A realidade é simples: mais construção significa mais pressão. Mais carros, mais ruído, mais circulação em áreas que, até agora, se distinguiam pela sua tranquilidade. E quando o acesso se faz por trilhos pedestres oficiais, utilizados diariamente por caminhantes, por animais, a pergunta impõe-se: vão alcatroar? Vão descaracterizar vias de acesso por causa exclusivamente destes empreendimentos?
É este o modelo?
Diz-se que o impacto visual é reduzido. Talvez ao longe. Mas quem por lá passa vê bem: betão, construção pesada, artificialidade onde devia haver contenção. Muitas vezes, a proximidade de áreas ecológicas sensíveis não pode ser rivalizada com argumentos técnicos convenientes. Há decisões que, sendo legais, não deixam de ser profundamente erradas.
E depois há o silêncio. Onde estão as Associações ambientais? Onde estão os partidos que fazem da defesa da natureza a sua bandeira? Este silêncio é ensurdecedor. Quando convém, levantam-se vozes. Quando não convém, fecha-se os olhos.
É preocupante o padrão que se repete: decisões tomadas a pensar no imediato, no lucro rápido, na fotografia do momento. E depois? Depois logo se vê. Se correr mal, se o projecto falhar, se ficar abandonado, cá estaremos todos para lidar com mais uma cicatriz na paisagem. Já vimos esse filme antes.
Entretanto, o cidadão comum, o açoriano mesmo, continua preso em labirintos burocráticos para construir numa simples parcela de terreno. Projectos pequenos enfrentam obstáculos intermináveis. Mas quando surge um projecto com dimensão financeira, tudo parece andar mais depressa. A percepção é clara e perigosa: há regras diferentes para uns e para outros. E isso corrói a confiança.
Os Açores não podem entrar numa lógica do «vale tudo». Não se pode estar continuamente a abrir portas a empreendimentos em cada recanto, em cada encosta, em cada espaço sensível. Sabemos que é difícil, somos pessoas pobres, e quando nos acenam com um molhe de notas, é fácil vender.
O desenvolvimento exige critério. Exige coragem para dizer Não. Exige visão a longo prazo, que é algo que, infelizmente parece cada vez mais raro.
A natureza açoriana precisa de respeito, e os próprios açorianos também.

João Luís da Câmara
Dirigente CHEGA Ribeira Grande

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