Portugal é, afinal, uma potência mundial do génio jurídico. Durante décadas ninguém reparou, mas as recentes notícias vieram finalmente revelar a verdade: este país está repleto de consultores brilhantes, mentes excecionais cujo talento só é verdadeiramente reconhecido depois de passarem pela política.
Ficámos agora a saber que Marques Mendes é mais um desses prodígios ocultos da ciência jurídica. Um verdadeiro Einstein do parecer e da opinião estratégica, capaz de faturar cerca de 709 mil euros em apenas dois anos por serviços de consultoria prestados a uma sociedade de advogados — a Abreu Advogados. Um feito notável para alguém que, até aqui, conhecíamos sobretudo como comentador de lugares-comuns e distribuidor profissional de banalidades televisivas.
Nunca o ouvimos desenvolver uma tese jurídica memorável, nem defender uma ideia inovadora em matéria de Direito. Ainda assim, por milagre — ou talvez por milagre português — descobrimos que por detrás daquela figura discreta se esconde um jurista de tal calibre que ganha, por ano, mais do que o Presidente dos Estados Unidos (400.000 USD), ao câmbio atual. É obra.
Se Marcelo Rebelo de Sousa foi um comentador exuberante e um académico respeitado, Marques Mendes, embora claramente menos talentoso no comentário político, supera-o largamente onde realmente importa: na arte de converter influência em honorários.
Luís Montenegro surge como outro exemplo desta inexplicável concentração de génio nacional. Também ele um consultor de excelência, como demonstram os valores cobrados através da empresa Spinumviva. Tudo, naturalmente, dentro da mais estrita legalidade. Afinal, trata-se apenas de “aconselhamento profissional especializado, pessoal, empresarial, governamental ou organizacional” — uma definição tão ampla que cabe nela tudo, desde estratégia empresarial até ao simples telefonema à pessoa certa
E não nos esqueçamos de José Sócrates, engenheiro de formação (nas circunstâncias que o país conhece) e consultor por vocação. Um caso em que, infelizmente, a genialidade consultiva acabou por levantar suspeitas mais sérias, ainda pendentes de julgamento. Uma exceção, certamente. Ou talvez não.
A coincidência é curiosa, para não dizer reveladora: em Portugal, o caminho para o cargo de primeiro-ministro passa invariavelmente pela consultoria milionária. Antes de governarem o país, estes génios já tinham governado empresas, consciências e agendas — sempre com recibo, claro.
E quem sabe o futuro? Não será impossível que um dia vejamos Marques Mendes, o consultor prodigioso, a chegar a Presidente da República. Afinal, se já aconselhou tudo e todos, porque não aconselhar também o país inteiro a partir de Belém?
Já imagino os pais portugueses, orgulhosos, a orientar os filhos que tiram 18 ou 19 valores na escola:
“Filho, esquece Medicina. Isso dá demasiado trabalho para enriquecer e de repente no SNS acaba o dinheiro fácil. Vai antes para consultor político. Não só ficas rico sem se perceber muito bem porquê, como ainda podes acabar primeiro-ministro ou Presidente da República.”
Portugal pode não produzir prémios Nobel, mas produz algo bem mais raro: consultores milagrosos que enriquecem rapidamente e governam através da arte de bem ‘aconselhar’.
Francisco Lima
Deputado e Vice-Presidente do CHEGA Açores

